Um olhar sobre a minha cidade 18-05-2010
Cansei de rodar por esses Brasis.E eu digo Brasis com s,porque quem conhece essa nação continente sabe que há “países” ao sul que apreciam erva-mate e churrasco,e há “países” ao norte cujo café da manhã é farinha com açaí.Línguas e vidas opostas, entremeadas por mais “países” onde tudo é pitoresco e único.
O Brasil que se irmana nas Copas é portenho, caiçara, caboclo e negro, e às vezes nos esquecemos que essa pluralidade é uma herança de convivência com a diferença,seja étnica,religiosa ou ideológica.
Essa grandeza geográfica me faz lembrar da razão deste texto - a minha cidade.
Tão pequena perto de grandes centros;tão grande que abriga pessoas de vários lugares.Uma cidade que escolhi entre tantos lugares por quais passei,tantas pessoas e idéias,tantos chimarrões e açaís...
De minha casa observo a pequenez grandiosa da minha cidade.O nascer do Sol coincide com a sombra de indústrias que se mesclam com prédios antigos e bairros calmos.E talvez seja essa a característica marcante da minha cidade - o contraste.Enquanto observo o horizonte que se fecha nas montanhas,posso ouvir as maritacas em formação uníssona desfilando sob o céu escandalosamente azul.Em contraste, escuto o ronco dos potentes caminhões que usam a via principal com rota natural, e um despertar indiscreto vai colocando a cidade em alerta e desperta para um novo dia.
Às vezes gosto de caminhar nessas manhãs de Sol. A passos rápidos se atravessa a cidade em hora e meia,talvez um pouco mais.No caminho,novamente o contraste.
Pistas de caminhada e esportes se misturam a moradores sem teto,enquanto cães sem teto se misturam a moradores de casas ricas e seus cães escovados.
Passo pelo mercado e o cenário mantém a plasticidade dúbia.Jovens que despertaram nas ruas perambulam e cruzam com trabalhadores e comerciantes apressados,estudantes e viajantes...
O som das manhãs se mistura ao cheiro de mato que ainda, corajosamente, persiste nessa que é uma cidade incrivelmente arborizada. Há árvores por todos os lados,que na época certa se enxameiam de frutas as quais ninguém permite que amadureçam – colhem-nas verdes mesmo,quase à guiza de aproveitar essa generosidade gratuita.
Nessas caminhadas posso perceber que o contraste social existe mesmo nos melhores lugares.Nesse mesmo mercado automóveis caros disputam vagas com caminhões velhos e abatidos; doutores passam por entre aqueles cujo álcool serviu de cobertor até inda a pouco,pessoas cujo olhar reflete a desilusão e o cansaço típicos de quem vive numa nação que só os vê quando interessa, e os esquece por anos a fio logo depois.
Continuo andando e me vejo perto do “Morro do Cristo”. Cidade pequena e do interior do Estado de São Paulo tem de ter um “Cristo”, de braços abertos e olhar distante. Do alto de sua majestade,segue com ares de guardião e protetor, e embeleza com fé a cidade que o abriga.
Aos pés de morro,novamente a pobreza. Apesar do olhar atento do Salvador, a vida segue seu rumo, e as casas carcomidas e o esgoto a céu aberto me lembram que o céu está um pouco mais acima; e que esse Cristo,apesar de belo, é apenas uma estátua de pedra.
Continuo minha caminhada e paro estupefato, como sempre, a admirar a arquitetura secular que se embrenha pelo centro da cidade. Prédios centenários e belos, ruas estreitas e cravejadas de paralelepípedos clássicos...
Alguns tem recursos para restaurar essas maravilhas; outros, no entanto, deixam-nas ao relento e à própria sorte,transformando-as em casas que se tornam assombradas ou abrigos de roedores e poeira. Mas é impossível, ao olhá-las, deixar de imaginar suas histórias e seus passados luxuriantes.
Minha cidade é meu abrigo, apesar de suas mazelas. É pequena o suficiente para que eu possa percorre-la com uma caminhada matinal; é grande o suficiente para abrigar pessoas,maritacas e prédios antigos e majestosos.
Ela me faz lembrar que o contraste talvez seja o tônico que faz a vida não perder o ritmo. As diferenças e a eterna luta para minimizá-las gera uma dinâmica indispensável ao progresso sob quaisquer de suas formas. E talvez seja por isso que eu amo a minha cidade. Porque, ao seu modo peculiar de misturar bêbados e estudantes nos ônibus matinais, me faz lembrar da importância da tal pluralidade, e me ensina uma lição nova quase todos os dias.
Assim como me mantém atento e com a visão aguçada para perceber o melhor desses nuances.
Meus passeios matinais...minha dinâmica...minha cidade e abrigo...
R
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