25 julho 2010

Nem tudo são flores ou romance.Desejo apenas que possamos de alguma forma evitar esse futuro!

IDENTIFICAÇÃO

-CÓDIGO GERAL: 88898734/0017 – 1
NOME: RICARDO G113 . CLONE MIMÉTICO CLASSE B
NASCIMENTO: 12/01/2093-NOVA SÃO PAULO – BRASIL
FUNÇÃO /CARGO: TÉCNICO NÍVEL MÉDIO EM MINIATURIZAÇÃO

PROCESSO/SERVIÇO

-IMPLANTAÇÃO DE MENSAGEM EM CARTEX TIPO BE
DISPONÍVEL NA CARGA 113397- CH PARA LEITURA EM
MULTICHIP PLASMÁTICO MIXXEX OU SIMILAR.
GRAVADO EM 2/10/2120.


Célere como o vento,a humanidade cruzou o tempo e deixou as cavernas para habitar o espaço entre as estrelas .Cresceu muito e, corrompida,converteu os frutos da própria terra em elementos de terror.

Sim,nós poluímos o ar com gases da morte; incendiamos os campos e as cidades com descargas de energia que,mais do que radiação letal,eram emanações inconscientes de insanidade.
A ultima grande bomba,a temível bomba de fusão batizada mórbidamente de Forno Solar,parece que se apagou.E deixou no ar o odor acre da destruição e da morte,como se o Inferno tivesse aflorado à superfície da Terra.Sufocante,e profundamente vazio.
De onde estou ainda vejo as últimas naves de assalto se afastando num facho de luz,com a consciencia do dever cumprido e pilotadas por algo não mais humano.Seus motores à fusão se aproximam sem ruído,feito aves de rapina numa cruzada anti-vida.
Seus pilotos são clones de combate e ciborgues,monstros biônicos que conhecem apenas a linguagem da guerra.
No centro das cidades destruídas,tropas inteiras de Mecanomos ainda lutam com os poucos soldados humanos que restaram; estes,heróis solitários de uma resistência inútil.Mecanomos são virtualmente indestrutíveis,e só irão parar quando o sol se apagar,extinguindo suas vidas artificiais e pondo um fim a uma programação de morte e loucura.

Sei bem que nós,assim como as comunidades refugiadas que restaram,não sobreviveremos aos gases.São neurodegeneradores,e não existe nenhum antídoto conhecido.
Logo tudo estará terminado para quem ficou.Os poucos módulos planetários já se foram,levando os mais ricos e os homens que criaram essa desolação.
São militares e mega empresários com seus políticos de estimação,que esperam como imbecis governar um mundo morto.
Foram todos,fugindo para os custosos e faraônicos domos orbitais,bem longe do horror que produziram.

Forço a memória e tento lembrar de estórias que ouvia quando criança.Do mundo louco e confuso,mas ainda bonito que existiu até quase metade do século passado.Um mundo onde não se imaginava as técnicas de miniaturização orgânica ou os processos hoje banais de nanotecnologia.As pessoas morriam aos milhares,em epidemias envolvendo microorganismos e cirurgias absurdas que cortavam o corpo e depois costuravam os pedaços.Era um mundo assim,com doenças e dores,mas também com flores e animais livres; estes, só os conheço de gravuras e composições virtuais.

Os habitantes da Terra somavam até oito meses atrás quase trinta bilhões de pessoas.Segundo o que se sabe das trincheiras improvisadas,somos menos de quarenta mil pessoas no planeta.Todos morreram,vítimas dos gases neurais e das termo-bombas.
Ninguém venceu.
Hoje,mais do que ousaram conceber as lendas do Apocalipse,vejo a face obscura e trágica do final da raça humana.
Hoje,cento e doze anos depois da terceira grande guerra,a chamada Guerra da Paz Final,o mundo se rende aos seus algozes,e apenas pede para chorar em paz.
Não há lágrimas,nem risos.Não há mais nada.

A última nave expressa já se foi.
Fico olhando seu facho luminoso,inaudível e brilhante,quase bonito.E antes de dormir para sempre,uma última lágrima turva minha visão e me dá a impressão de estar vendo,bem ao longe,a luminosidade promissora de uma linda estrela cadente”.

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