03 julho 2010

Outro dia me perguntaram porque gosto de escrever.Já disse algumas vezes que escrever é minha relação intimista,como se diante das palavras seja a única condição em que me sinto livre.E me lembrei de um texto que escrevi a tempos,cujo título responde a pergunta que me foi feita de forma clara e profundamente verdadeira.E eu posso dizer,tranquilamente,que se algo espelha esse desconhecido e mediocre escritor são essas próximas linhas...



Escrever é minha prece favorita...



A escrita; a maneira pela qual a palavra adquire forma,torna-se tangível.

Poder-se-ia dizer que a escrita é o corpo físico da palavra,conquanto sua alma se dilui entre significado e som.
Adoro escrever.
Agora mesmo vejo a chuva caindo lenta pela janela de minha prisão sem grades.
Sei que não tenho muito a dizer.Tudo já foi dito,em algum tempo,em algum lugar.
Sei também que tudo tem de ser repetido,geração após geração,pois uma das coisas que o homem faz pior é escutar.
Fico pensando na solicitude do papel,e isso me comove.
Fico pensando em mim...
Me deixo um pouco solto e relembro das promessas.Quantas houveram,quantas já nem existem.
Quando jovem,me prometeram mil coisas;promessas de felicidade,de realizações
inúmeras,promessas de uma vida sob controle...

Fico pensando na solicitude do coração jovem.
Nem imaginava que as promessas teriam um preço alto,e que todo uma vida sonhada já saia da prancheta recheada de sublimações e servilismo a um sistema que parecia perfeito,mas é canibal e destrutivo .
Como todo jovem, mergulhei de cabeça na certeza do que me ensinaram e ,no auge da minha vontade de ser,comecei a perceber as reais dimensões dessas promessas.
Abri sem muito critério capítulos estranhos do processo da vida e suas inesperadas recorrências.
Comecei a pensar que o mundo talvez não fosse justo,e que não seria fácil crer sem duvidar,ter sem vontade de possuir,amar sem a certeza do para sempre.
Essas considerações confundem e parecem tolas,mas não são quando defrontadas com o mundo real e suas contradições inevitáveis.
Agora já não tão jovem,lembro-me de ter perguntado,afinal,o que seria realmente bom no mundo..
Sem resposta ,tentei enquadrar minhas expectativas ao que me era simples.Nesse dia,me lembro,as tais promessas me estremeceram como um choque sísmico,e quase perdi a pouca fé que ainda tinha.

Perdi-me sem pauta numa realidade desalinhada.
Da minha fé das promessas,não restou muita coisa.
Meus deuses, há muito encapsulados,perspassavam ao longe da minha realidade e
das minhas certezas.
Sem perceber,fui adentrando ao mundo frustante da desesperança.
No espelho,olhos fitos em olhos,buscava expressões vagas,meio respostas,meio teoremas simples para grandes perguntas. Me vi alguém tanto perene quanto transitório,um nada com casca...centro sem distancia.
Passo a mão na pele de hoje e sinto,entre um e outro desvio epidérmico,um suspiro sem muita voz,uma ferida invisível...um instante de paz conquistada.
Das minhas promessas,restam apenas instintos.
No homem,resta a certeza de que uma realidade plausível parece mais confortável,
embora nem sempre poética.
Do poeta ,resta a esperança não mais num mundo melhor,mas numa melhor absorbância do possível.
E o possível...nem sei ; o possível parece ser,ao chegar,ainda insuficiente...




RICARDO

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