10 abril 2010

LOUCO 1/2/2007





Eu sou louco.
Pelo menos é o que dizem os médicos,os terapeutas...até minha família,se é que ainda tenho uma.
Moro nessa clinica a mais ou menos dois anos.Meu quarto é assim,um estranho misto de cela com apartamento de hotel barato.
Por dentro tem o usual:cama,criado – mudo e abajur.Por fora,é isolado do mundo por uma porta de ferro com uma desconcertante e indiscreta...janelinha.Um postigo grosseiro que serve para lembrar-me que posso ser “invadido”a qualquer momento.

Mas,como eu dizia,sou louco.
E como louco posso xingar,berrar e dizer verdades na cara de qualquer um – tenho carta branca simplesmente por que sou ...louco!

Meu mundo é único e intimista.
Como louco ,não preciso partilhá-lo com ninguém.Em meu mundo exclusivo,sou rei e súdito,presidente e indigente...tanto faz!

Meu psiquiatra diz que quer adentrar esse mundo alternativo.
_Confie em mim,ele diz.
Como posso confiar em alguém que me considera indigno de confiança? Que me acha...louco?
Fico pensando em quais parâmetros ele se apóia para dizer,categóricamente,que eu sou “fora do ar”.
Pessoas como ele passam o dia vendo adultos babando por corredores,mulheres gritando em meio a uma solidão dopada com remédios,jovens desesperados conversando com criaturas imaginárias...
Ao fim do dia entram em seus carros caros,vão para suas casas e esposas também caras;tomam algumas doses de uísque e,depois de um banho e um viagra,transam com suas mulheres pensando na enfermeira jovem que fazia plantão semana passada.
No fim de semana vão velejar ou dividir a pescaria com outros colegas,lógico,médicos também.
E enquanto tudo isso acontece os loucos estão lá,bem longe,babando e pedindo pela ajuda invisível,enquanto são dopados para não incomodar ninguém.

Semana passada vi dois enfermeiros apostando sobre quanto tempo um paciente levaria para ter uma crise de histeria sem medicação.
Aliás,você pode sofrer abusos e maus-tratos à vontade – não adianta pedir ajuda ou denunciar.Voce é louco,e ninguém acredita em você.
É horrível saber que nada do que você diz é levado a sério.Tanto faz você dizer que ama,ou que odeia.Tanto faz dizer que está triste,ou está feliz.

Se diz que viu,imaginou.Se diz que não viu,é porque vive alienado do mundo real.

E você,que acabou de ler esse desabafo,com certeza não vai pensar muito sobre isso.Afinal,eu sou louco...e ninguém presta atenção no que os loucos dizem...ou escrevem.

Mas na próxima vez que passar em frente a um hospício,pare uns minutos.Olhe atentamente à sua volta,ligue o rádio do automóvel e sintonize um noticiário.Preste atenção nas pessoas e no que estão fazendo.

Perceba que o que nos separa talvez seja,simplesmente, um muro alto e um véu de indiferença.




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