Torre de papel 2004-11-01
O garotão até que chegou cedo.Dia de prova,último bimestre...falta pouco.
A carteira era sempre a mesma;nem no fundão,nem no gargarejo.Afinal,Rogério não era nem bom,nem mau aluno.Queria,apesar das dificuldades financeiras,estudar comunicação social – propaganda!
A prova veio.Eram 13:45 hs da tarde.
Às 14:00 hs,Rogério entregou a prova.Não havia respondido uma questão sequer.
A professora interveio:
_Rogério,voce vai entregar a prova? Por que? Não sabe nada,nenhuma questão?
_Sim,ele respondeu,eu sei.Mas quero entregar a prova.
_Rogério,vou ser obrigada a te dar zero nessa avaliação.
_Sim,eu sei.
_Voce pode perder o ano.
_Sim,eu sei,ele insistiu.
_Não vai se formar,nem poderá prestar vestibular.
_É verdade,concordou Rogério.
_Não vai estudar,portanto não vai ter bons empregos,com salários razoáveis.Sem salário,não poderá comprar a casa dos seus sonhos;nem sequer poderá casar-se e ter filhos.
_É,eu sei de tudo isso.
_Mas Rogério,ela insistiu,sem uma família voce jamais será um homem realizado.E sem realizar-se...
A conversa duraria horas se Rogério não emendasse:
_Quero quebrar essa corrente fictícia e ver no que vai dar !!
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Eis a forma como vivemos.Chame do que quiser;casualidade controlada,verticalização do processo de vida com previsibilidade relativa...sei lá!
Desde o Iluminismo que começamos a enxergar a vida como uma seqüência controlada e previsível de fatos.Fazemos algo porque esperamos um resultado específico,nem sempre condizente com aquilo que realmente somos.
Olhamos nossos filhos e criamos essa imagem tola do previsível.Seu filho precisa fazer faculdade,ter dinheiro e cumprir seu papel na sociedade.Ele não pode ser gay,nem espião,nem hippie – isso não é previsível.
Mas,e se ele for?
Hoje vivemos uma realidade tão estranha que somos capazes de imaginar nossos filhos como drogados antes de os imaginarmos como homossexuais.
Imaginamos que serão médicos,advogados ou arquitetos,mas não os vemos como mergulhadores de plataformas submarinas...nem estilistas...nem atores de filmes pornô.
Mas poderão ser...porque não?
As idéias de uma vida atrelada a certas atitudes surgiu com o Iluminismo,e com os ideais de liberdade (contraditório,não é?) da Revolução Francesa.
Até aquela época,ninguém poderia almejar uma melhora de vida,e ainda precisava conviver com invasões,mortes inesperadas e doenças aos montes.
Essa é uma das razões porque as execuções eram feita em praça pública,com a assistência de crianças e do povo em geral – a morte era uma constante banal,e poderia acontecer a qualquer momento,sob qualquer pretexto.
Os recém-nascidos morriam às centenas,e as pessoas na Idade Média eram consideradas velhas aos 40 anos de idade.
O Iluminismo e o Renascentismo trouxeram luz a uma época de trevas,e trouxeram esperança.Mas,para isso a sociedade teria de ser organizada como um relógio,atrelada portanto a normas e valores modernos – esse foi o estopim da sociedade como a aprendemos .
Esse relógio funcionou bem... até agora.
Eu costumo usar a instituição do casamento para explicar essa dinâmica.
A cem anos atrás,quando duas pessoas se casavam (de sexos diferentes,sempre!) ambas sabiam seus direitos e deveres;e viviam,talvez não felizes,mas cientes do seu papel e seu destino.Fictício ou não,funcionava.E hoje?
Os valores sob os quais crescemos pouco valem hoje.Não que fossem melhores – apenas existiam.
Essas “crianças” que hoje chamamos de jovens vivem uma realidade tristemente calcada na liberdade sem objetivo,no conhecimento sem critério,na banalização do sentimento.Sabem muitas coisas,mas desconhecem como julgar e utilizar esse conhecimento.A educação moderna privilegia a informação em detrimento da formação.
Num claro descaso à emoção,eles “ficam” uns com os outros como se nada tivesse real sentido. Sentem-se bem? Não,sentem-se sós!
Esses jovens são nossos filhos, sabia? Nossos filhos...
Quero deixar claro que não pretendo parecer saudosista e defensor dos valores do passado.Valores são baseados em símbolos,e já escrevi algo sobre isso.
A China sobreviveu,e sobrevive graças a um sistema rígido de valores.Ela tem 6000 anos de história. Se foi bom? Os chineses não são felizes;e agora?
No Ocidente já passamos por dezenas de impérios,dezenas de regimes,e pelo menos cinco religiões poderosas,que dominaram o panorama mundial por milênios.Quem gosta da matéria,sabe.
O Cristianismo verá seu próprio fim algum dia.Assim como o Zoroastrismo foi poderoso e caiu;o Judaísmo fundamentalista de Davi;e depois a religião greco-romana;depois o Cristianismo e hoje,crescendo assustadoramente,o Islamismo – tudo floresce e morre na roda instigante da História.
Porque não se trata de Deuses,mas sim de valores.O homem é palpável;os Deuses são apenas um sonho e uma ferramenta que muda através da História como mudaram governos,dinastias e impérios.
Até porque tudo está aí para ser,constantemente,desafiado.Foi para isso que,talvez, eu tenha entregue a prova em branco.
Foi para isso...
RICARDO
Vc conseguiu escrever o q eu queria.
ResponderExcluirmuuuito legal.E muuuito verdade.