Eternidade
Ele sempre fora um grande cientista e,no seu tempo e para seu povo,uma mente brilhante.
Biologia,Mecânica Quântica;Astronomia...haviam poucas ciências que não dominava,e poucos idiomas que não falava.
Talvez por sua genialidade,vivia meio absorto em seu mundo cerebral e empírico;um mundo que os gênios conhecem bem como solitário e insaciante.
Havia desenvolvido inúmeros processos,fármacos e novas substâncias,mas sua fama vinha do fato de alguns seus “milagres da ciência” aumentarem consideravelmente a longevidade daquele povo.
Antes de suas “alquimias”,um cidadão comum poderia viver talvez mil ou mil e quinhentos anos terrestres.
Agora,todos ultrapassam folgadamente os dois mil e quinhentos,e isso de forma saudável e sem medo de deformidades ou doenças contagiosas.A Medicina havia alcançado um patamar jamais sonhado,e parte dessa conquista devia-se a ele.
Mas sua genialidade lhe rendeu um idéia fixa,e um sonho censurável – o da vida eterna.
Disposto a conquistar a imortalidade,o cientista entregou-se de corpo e alma a um projeto que lhe tirava o sono, o tempo e quiçá o bom-senso – um projeto que lhe daria o poder de jamais morrer!
Dir-me-a você,que lê essa estória,que tal meta é impossível e anti-natural.
Naquele mundo outrora hostil criaturas bizarras e com adaptações únicas evoluíram.
Algumas,cujo ciclo reprodutivo estava atrelado às movimentações dos doze satélites naturais,só acasalavam em ciclos de quarenta a cinquenta anos terrestres.A saída para a perpetuação e variabilidade genética foi que essas criaturas viviam dez,doze mil anos...
Mas... vida eterna?
O cientista investiu seu tempo e conhecimentos com afinco ,até que seus esforços foram recompensados. Armado com sua inteligência ímpar e a tecnologia fantástica de seu tempo,desenvolveu um soro com proteínas que ele próprio havia sintetizado - criou um soro que batizou apropriadamente de Elixir da Vida.
E como ninguém se atreveria a testá-lo,resolveu testá-lo em si mesmo.
E,numa manhã de um dia frio e solitário,inoculou nas próprias veias o atributo dos deuses – queria conquistar...a vida eterna.
O soro milagroso não funcionou de imediato.Ao contrário,a cada nova sessão na qual se auto-administrava o tratamento,sofria dores atrozes e náuseas que perduravam por dias a fio.
E tudo estava lá,sendo anotado paciente e diligentemente pela única cobaia possível – ele mesmo!
Julgava ter fracassado;desanimava às vezes.Mas insistiu com as penosas sessões.
Com o tempo,os efeitos colaterais do tratamento foram se tornando mais suportáveis.Até que um dia,num experimento qualquer,um equipamento sofreu pane e,sobrecarregado,explodiu!
O cientista foi atingido em cheio pela onda de choque.Embora protegido,pode ver e especialmente sentir suas mãos sendo literalmente consumidas pelo fogo químico.
Ninguém presenciara o ocorrido.Apenas alguns ouviram a explosão e,embora tenham atendido à emergência com prestreza,não tiveram tempo de constatar o milagre que só ele,o homem imortal,presenciou.
Como por encanto,sua mãos se regeneraram em menos de um minuto,e nenhum vestígio de qualquer ferimento podia ser notado.
_Mas,Dr....o senhor está bem? Como pode não ter se ferido? Essa explosão...
_Estou bem,ele retrucou;acho que tive muita sorte!
Em casa,pensando e ao mesmo tempo “comemorando” o seu sucesso,uma idéia inesperada acometeu sua personalidade sempre solidária e preocupada com seus semelhantes.
Para quê dividiria esse incrível”poder”?
Para quê daria aos outros o fruto máximo de sua genialidade e esforços?
Acostumado a trabalhar em prol do bem-comum e da melhor qualidade de vida para todos,o cientista se via dominado por algo que desconhecia – o egoísmo!
Os anos passaram!
O cientista,sempre incólume,não apresentava nenhum tipo de patologia e,mais interessante,não mais envelhecia.E,curiosamente,não comia nem bebia.Seu novo corpo lhe bastava!
Como eram muito longevos,os outros não percebiam com clareza e,quando o faziam,já estavam perto da própria morte.
Todos,menos ele!
Milênios se passaram.Seus familiares se foram;seus amigos se foram.
À sua volta,um mundo novo surgia,pois o progresso e as mudanças e aprimoramentos sociais são caracteristicas próprias das civilizações tecnológicas.
O cientista,trinta mil anos após ter se auto-inoculado o soro milagroso,arrependia-se de sua prepotência e apenas pedia para morrer.Em vão tentava dar fim à própria vida – a tudo era imune,e qualquer lesão curava-se,incrivelmente,cada vez mais rápido.
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A ciência avançada desse povo apontou o inevitável.Um meteoro de proporções gigantescas foi gerado a partir de um cataclisma planetário em um sistema estelar próximo;um evento que,embora estivesse a bilhões de quilômetros,encaminhava-se sem contenção para o sistema solar desse mundo – chocar-se-ia,em alguns milhares de anos, com o grande Sol vermelho que era o centro de dezenove planetas – três deles,habitados!
Essa raça jamais tinha se interessado por viagens espaciais.Sua principal linha cientifica objetivava seus cidadãos e seu meio ambiente.Salvo alguns vôos orbitais e algumas incursões mineralógicas às suas doze luas,pouco investiram em viagens interplanetárias ou interestelares.
Seria preciso muito tempo para desenvolver técnicas que pudessem deslocá-los do planêta condenado e, mesmo assim...deslocá-los para onde?
Os cálculos do impacto previam que este aconteceria com o Sol do sistema – as conseqüências,embora imprevisíveis,tinham algo de certo:seriam catastróficas para a maioria dos planetas,principalmente os mais próximos.
O cientista viu nesse evento sua grande possibilidade de encerrar uma loucura que começara a trinta mil anos atrás.
É bem verdade que ressentia-se do fim de sua civilização,do fim de tanto brilho cientifico e social.
Ressentia-se da lua mais próxima,recoberta por uma flora luxuriante e pitoresca.Quase um jardim particular,fazia as vezes de ponto turístico e lazer para seu povo!
Ressentia-se de tanto progresso obtido em milhares de anos em que ciência e sociedade tiveram de firmar um pacto avançado,pois entenderam que o progresso científico não é nada sem o desenvolvimento de uma sociedade igualitária e justa.Em termos políticos,esse era um povo que a muitas eras havia extinto as guerras,o crime e as injustiças sociais.
Longe de terem posturas socialistas,haviam percebido que a compreensão do próprio ser é quem gerava respeito e igualdade.Que a visão das suas próprias responsabilidades inviabilizavam deuses,ícones e totens.O ser responsável não delega suas responsabilidades para ninguém,sejam outros indivíduos ou deuses.
Ressentia-se de jamais ter gerado descendentes.Embora hermafrodita,seu povo só conseguia procriar quando um forte estímulo gerado de sua psique o impelisse à auto-fecundação.Ou ainda,quando dois indivíduos possuíam uma forte afinidade psíquica,aí sim eles fecundavam ou ao outro ,e os dois geravam descendentes.
Ainda assim,totalmente desesperado,ansiava pelo impacto do meteoro fatídico;impacto esse em que nada poderia restar intacto,incluindo-se ele próprio!
Seu povo passou os milênios seguintes pesquisando formas de “fugir”do inevitável.Muito se fez em termos de ciência espacial,mas nada tão complexo quanto uma astronave superlativa com tecnologia para navegar pela galáxia.
Chegaram a propor que uma “Arca” de resgate,bem menor,levasse consigo somente as mentes mais brilhantes e destacadas de seu mundo.
Mas,não! A moral sofisticada desse povo não via as coisas desse modo,e não haveria ninguém para escolher os “premiados”!
Muitos resolveram passar o resto de seu tempo ocupados com lazer e atividades culturais.Nesse mundo coordenado,muito era feito por maquinários e equipamentos automáticos.
O trabalho era essencialmente intelectual,e muitas horas eram ocupadas com prazeres dos mais variados.
Mas,veio chegando o momento fatídico.
Equipamentos de varredura espacial monitoravam com precisão absoluta a trajetória do meteoro.
Observatórios dos oito continentes trocavam informações com a velocidade da luz.
Até que o dia chegou!!
A imagem do gigante rochoso se descortinou no firmamento esverdeado do enorme planêta.
Em segundos,a temperatura subiu dezenas de graus,e o ar foi se tornando irrespirável.
Mais alguns minutos e cidades inteiras principiaram a incendiar;a atmosfera hiperaquecida pelo atrito foi gradualmente tornando-se um mar de fogo.
Os oceanos começaram a evaporar e, antes mesmo do impacto,praticamente toda a vida jazia calcinada.
O impacto foi tremendo!
E num choque de proporções siderais,meteoro e planêta se aniquilaram!!!
Ele nem calcula quanto tempo passou.
Lentamente foi despertando e percebendo-se imerso numa densa nuvem de poeira.
À sua volta destroços dos dois corpos celestes flutuavam,mantendo próximos devido à gravidade inerente.
Não havia ar para respirar mas ainda assim ele estava lá,consciente e...vivo!Vivo!!
Mais uns minutos e entendeu o que estava acontecendo.E agora,flutuando no espaço entre os restos de seu próprio mundo, o cientista deu um grito desesperado;grito esse que jamais seria ouvido!
Apenas a Eternidade anunciou-se dolorosamente infindável.
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