17 junho 2010

Soube que algumas pessoas queridas tem seguido meu blog.Obrigado pela paciência e pelo carinho. Eu escrevi esse conto porque sou um fã de aranhas.Para quem não sabe,elas existem a 300 milhões de anos e há mais de 30 mil espécies diferentes.Sua importância ecológica é enorme;sua complexidade biológica,fantástica.Pense nisso!




OITO PATAS




Aracnofobia é uma das formas mais intensas de fobia – o medo insano e incontrolável de...aranhas.
Não importa o sexo,a idade ou a compleição fisíca – perto desses curiosos animais de oito patas muito “marmanjo” vira “moça” e passa ao largo.
O que me lembra uma estória...

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Horácio chegou mais tarde do que o costumeiro.Dez,talvez dez e meia de uma noite que terminara em cervejas e piadas repetidas com amigos também repetidos.
Uma vez por semana eles se reuniam e “celebravam” o fato de que eram eternos companheiros de poker,bebidas e muita solidão.
Três não tão jovens solteirões que foram vencidos pela timidez,pelo falta de iniciativa e pelo fato de que não haviam nascido com rostos de anjo ou físicos de atleta. Mas tinham bons empregos e uma vida até tranqüila,a ponto de beberem somente bebidas de qualidade e colecionarem filmes em blu-ray!
Horácio é aracnofóbico.
Desde pequeno considera esses aracnídeos as criaturas mais apavorantes,mortais e traiçoeiras do Universo!
Aos cinco anos de idade,assistira uma ficção dos anos cinquenta,daquelas que reprisavam insistentemente nas antigas “sessões da tarde”.A película – eu me lembro dela – chamava-se Tarântula,e contava a velha estória de criaturas filhas da radiação.Nos anos cinqüenta tudo lembrava acidentes nucleares e coisas do tipo.Pois uma pequena Tarântula,exposta a essas experiências mirabolantes,adquiria a dimensão de uma casa e devorava cavalos e outros bichos.Meio apavorante mas...não para o Horácio.
Ele só voltou a dormir em um quarto sozinho aos doze anos;e mesmo assim foi por vergonha de que os amigos soubesse que dormia com seus pais!
A mera lembrança do filme antigo provocava-lhe náuseas e tremedeiras.

Mas voltemos àquela noite em que Horácio chegou um pouco mais tarde.
Fechou a porta do pequeno apartamento e,ainda no escuro,tateou em busca do interruptor de luz.Um clic! e...lá estava ela!
Como uma tocaia bem planejada,a imensa caranguejeira postou-se entre o corredor do quarto e a pequena cozinha,como se bloqueasse a passagem.
Passada a primeira onda de susto,sobreveio o pânico.Pensou em sair pela porta pela qual entrara mas,qual! Havia jogado,ainda no escuro,a chave da porta junto com sua jaqueta na cadeira costumeira,ao lado do sofá.E entre ele a cadeira estava ela,a agora “gigantesca”...aranha!

Mas,pensou ele,como esse “bicho”veio parar no apartamento? Estava no segundo andar e protegido pelas paredes de tijolos e ralos gradeados!
O prédio era dedetizado;seu próprio apartamento,também!
Enquanto o “Godzila” de oito patas o observava imóvel,começou a lembrar...
Por conta de seu medo,sempre procurou informar-se sobre os hábitos das aranhas e outros insetos a fim de não ser surpreendido como agora.
Sabia que esses poderosos artrópodes eram imunes a uma dedetização caseira –ela só servia para afastar os insetos que lhes servem de alimento.
Sabia que eles se deslocam grandes distâncias para caçar,e sua resistência é superlativa.
Também sabia que espécimes são constantemente transportados acidentalmente em caixotes de frutas,legumes e outros.Até serpentes são transportadas assim!!
Mas...peraí ! Meus Deus...a caixa de laranjas!!

A vizinha do lado era uma senhora com mania de saúde – natureba mesmo! E por conta dos radicais livres e da vitamina C,consumia semanalmente litros e litros de suco de laranja;e exatamente por isso comprava-as às caixas que o entregador do mercado trazia até sua casa em troco de uma “gorjetinha”.
Maldita seja a D. Lourdes e sua cítrica mania!

E enquanto pensava não notou que o leviatã multi ótico havia se deslocado alguns centímetros.Poucos,mas o suficiente para o colocaram mais perto do Horácio – assustadoramente mais perto.

O suor começou a brotar na testa de Horácio.O velho enjôo já se avizinhava e,de repente,apercebeu-se de que estava encurralado e à mercê do mais temível dos monstros – Horácio estava...perdido!

A aranha movia-se lentamente.A luz da lâmpada amarelada refletia-se na estrutura ocular de maneira fantasmática,e os pêlos afilados e abundantes davam-lhe uma feição de criatura nascida na Terra Média ou no Universo de Harry Potter.

E enquanto Horácio a fitava paralisado e impotente,o imponente octópode virou-se,de repente,e pôs-se a caminhar em direção à janela da sala,que encontrava-se,naquele momento...fechada!

E agora?
Se por acaso a sorte ajudasse,a aranha caminharia por sua conta em direção à janela,mas esta precisaria estar aberta.E para abri-la,Horácio teria de atravessar os “quilômetros” que o separavam da mesma,e atravessar o caminho interceptado pela aranha.

Pé ante pé,centímetro por centímetro,Horácio foi se deslocando em direção à janela fechada.No caminho,podia perceber a aranha gigante seguindo seus movimentos como uma cascavel experiente.Por detrás do sofá,sequer notou que poderia ter acesso à chave da porta jogada anteriormente junto com a jaqueta.

Esticando o braço e os dedos,destravou a tranca da janela e abriu-a com rapidez a janela metálica.
Quase perdendo os sentidos,voltou pelo mesmo caminho e aguardou o próximo movimento do inimigo que,inesperadamente,parou.
Quinze longos minutos se passaram até que a aranha retomou seus passos complexos em direção à janela – agora,aberta!
Mais alguns minutos e ela alcançava a janela,e conseqüentemente o lado externo do apartamento.
Alívio!

Horácio prontamente correu a fechar novamente a tranca,mas mesmo assim somente lá pelas duas da manhã conseguiu respirar normalmente.
Automáticamente ,iniciou um arrastão detalhado em todos os 48 metros quadrados de apartamento.Não encontrou mais nada!

Dia seguinte colocou o imóvel à venda e foi morar provisoriamente em um hotel.
Dez dias depois,com o apartamento vendido,mudou-se para o Arroio Chuí,onde diz que vai abrir um “comerciozinho”!

Alguém lhe disse que aranhas só gostam de lugares quentes!!
E Horácio,doente de pavor e inconsciente dentro de sua fobia,largou tudo.Lá no extremo do país,em sua mente seguro dos monstros que o apavoravam,começou nova vida.
As aranhas,maravilhas da Natureza,seguem seu curso.
E prosseguem alheias aos seus “inimigos” visíveis...seguem...simplesmente,essas notáveis criaturas...
As incompreendidas...aranhas!




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