04 julho 2010

esse foi um dos textos mais importantes que escrevi.quem me conhece,me reconhece...

AS FLORES ...EU AS SINTO PLENAS...



O vento ,intenso e frio,cessou sem aviso,exatamente como veio.
Os caules trêmulos recobraram o sentido,abriram suas folhas ao céu
e temerosamente ,como é típico dos caules,respiraram o doce carbono
que emanava das correntes e dos assobios por entre as mudas novas.
Felizes e ternas ,elas estavam lá.Flores gigantes,coloridas e ávidas,
como o que pretendiam ser ,e acima de tudo ,viver...
Eram duas e ,sem que antes percebessem,macho e fêmea,amantes e
distantes,verdade física e poética ...milenar constância...
Sem aviso ou consentimento ,uma estranha canção bioquímica ecoa
por entre as árvores, anuncia mudanças e chega ao íntimo das flores ,
que se olham e vagarosamente,se permitem a embriaguez do desejo.
Corolas se tocam sem que tenham consciência da magia.Estames
atrevidos tocam sépalas tímidas e delicadamente,exploram a nudez de
um gineceu pulsante...temerosamente amante...
O toque das pétalas se intensifica e os elementos claros da flor que
se abre mulher tornam-se mais amenos à invasão,mais ardentes ao toque.
Os estames ,agora libertos ,transcendem sua função e ,misteriosamente,
amam.Invadem os pistilos sedentos e mergulham,floemas à flor da casca,
e repetindo o doce mistério da flora,executam o ato máximo da vida e o
ritual do todo e do sempre.Nesse momento mágico,androceu e gineceu
tornam-se um só,e a Flora comemora o Amor mais uma vez.
O pólen ,solto no ar como semente ao vento,tinge as pétalas sedosas
e anuvia o ar .As flores,ainda absortas,encolhem sem pressa esperando o
fim do dia e de seus momentos.O pólen ,levado à revelia pela brisa calma ,
voa em tolos devaneios e se aventura,criança,no mundo do Amor e do
contínuo da existência.
Na flor amada,nada mais será como antes.Antes visitada,jamais desse
modo, e só agora plenamente acariciada,a verdade da vida surge clara como
o dia ,forte como a terra,terna como o mais doce orvalho.
Na flor amante,o sol é um mero lume,a paixão é agora um sentido,e a
vida é nova como quando ela acreditava no amanhã...
A flor amante,estomatos sonados,respirou mais fundo e se preparou
para mais uma metamorfose.Respiraria oxigenio até de manhã e sempre
sentia nessa transição um mal estar desafeito,como se o que é não devesse
ser assim.A flor amada,também envolta nessa transformação,recolhe-se
tímida,como deve ser às flores perfeitas.Estas sim,prudentes,olham os
jardins com cautela,se colocam com exatidão,e principalmente,jamais
se dão a quem não as quer.São flores,perfumadas e certas...absolutas...



RICARDO
13/06/98

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