24 julho 2010

Este texto na realidade faz parte de uma carta que enviei à minha filha por ocasião do seu aniversário.Sei que ela não se magoará se eu publicar apenas essa parte do carta!É que eu gostei do texto.






É impossível não percebermos as mudanças radicais de valores pelas quais o mundo,está passando.
Esses últimos sessenta anos tem jogado na mesa todas as cartas que a sociedade sempre possuiu,embora as mantivesse convenientemente escondidas.
Valores como casamento,família,religiosidade e seu contraponto,a ciência;sem falar em células-tronco,aborto e sexualidade,todos estiveram na berlinda e puderam ser vivenciados com relativa liberdade (quando eu era criança,bunda era “palavrão”,e gay,um termo moderno,era coisa para ficar escondido).

Olho os jornais diáriamente e percebo,pasmo às vezes,casos Nardoni misturados a paradas gay,com uma dose de corrupção política e outra pitada de seqüestros covardes – e tudo isso costurado e temperado com futebol e mulheres - melancia.
As pessoas lêem essas páginas com a mesma indiferença com que,minutos depois,tomam um café e acendem seu maldito cigarro,a despeito de morrerem milhões todos os anos com esse vício.
Me choca como estamos nos tornando insensíveis.As pessoas que morrem em terremotos e atentados não são menos pessoas do que nós apenas por se encontrarem a 15.000 Km de distância!





Essa preleção toda talvez seja para falar sobre relacionamentos.
Muita coisa efetivamente mudou.
Voce sabia que,na sociedade ocidental,25% das famílias são compostas de 1 pessoa só?
A 100 anos,eram 8%.E a 200 anos,0%.
Estamos mais sós? Francamente, eu penso que não!
A definição de relacionamento ( e de família) mudou muito.Salvo entre as camadas de menor cultura,estar só não é mais estigmatizado como antigamente.Porque a 40 anos atrás,uma mulher só ficava só se ninguém a quisesse.E era, às vezes,até humilhante!
A 40 anos mulheres separadas “não prestavam”.
A 40 anos,jovens deviam respeitar os mais velhos mesmo que não fossem,eles os jovens,respeitados.
Criança apanhava (bem,infelizmente isso não mudou muito),não tinha opinião e devia calar a boca quando um adulto falava.

Não se admitia alguém optar por ser só.
Não se admitia casar sem ter filhos.Aliás,não se admitia casar sem “papel passado”!

[Eu tinha um tio e uma tia que não tiveram filhos por problemas de ordem fisiológica.Apesar de serem felizes todo mundo dizia que,para eles ,a felicidade era impossível,pois não eram “completos”.Olhavam para eles quase como “deficientes”!]

Mas o que eu quero mesmo te dizer é que,apesar de todos os problemas,penso que as pessoas estão desenvolvendo uma nova visão do “estar junto”.
O senso de posse não tem mais espaço nesse mundo novo.As crises de ciúme tornaram-se,no mínimo,bregas.Como fumar,tomar altas bebedeiras ou cuspir no chão!
As pessoas estão aprimorando o desejo de trilhar seus próprios caminhos,seja intimamente,profissionalmente,sexualmente ou se lá mais o quê.
Estamos gradativamente conquistando o direito a escolhas verdadeiras,sem o crivo dos pais ou da sociedade em geral.
Hoje qualquer pessoa sensata entende que a meta da vida não é casar,ter filhos,ganhar dinheiro e passar os anos ciente do dever cumprido,para enfim morrer com dignidade (o que há de digno em morrer? Me explica!).

A meta é ser voce!

E isso não significa abdicar do convívio,ou mesmo do amor.
Um casal não precisa ser “dependente” um do outro.Um casal precisa apenas saber que,quando necessário,não estará só.E quando não for,também!
O ideal romântico de “duas metades”que se completam já não faz tanto sentido.Afinal,ninguém existe pela metade.
As pessoas não precisam se amalgamar para serem felizes.Basta andarem lado a lado.
A palavra da vez é PARCERIA.

Percebe-se portanto como é importante que esses novos ventos de compreensão ventilem os meios familiares e afetivos,sempre tendo em foco o respeito à individualidade e ao arbítrio.

[Você já reparou que os pais em geral querem que os filhos estudem – tem que ter diploma,não importa do que – sejam independentes ,mas não muito;sejam heterossexuais,não tenham vícios nem façam tatuagens,bebam só socialmente e cuidem deles quando ficarem gagás? E se você resolver ser mergulhadora de plataforma submarina,gay,ativista política e tatuar o Che Guevara na bunda – e de quebra resolver morar com uma maratonista...em Nairóbi?
Para muita gente,filho ainda é projeto,percebe? E um projeto “quadrado” e sem direito a “imprevistos”.]



Eu sempre acreditei que o indivíduo tem,em suas escolhas,uma indelével impressão digital.
Como também acredito que tenhamos um leque enorme de possibilidades,e até por isso precisemos pesar muito o que fazemos.
Voce pode até arrancar o prego da madeira,mas o buraco fica.
[Isso... se chama conseqüência! Convém pensar antes de pregá-lo!]
Acho que essa é uma das razões pelo qual penso que precisamos,tanto quanto pudermos,sermos nós mesmos.
Suas escolhas,além de dizerem “quem” você é,também estenderão reflexos que podem influir em sua vida inteira,tanto para bem quanto para mal.
E esse é um bom jeito de definir uma pessoa:
_Afinal,quem é você?
_Eu sou...minhas escolhas!


Sabe,eu nunca fui “politicamente correto”.Na verdade,acho essas pessoas com ares de escoteiro um bando de chatos.
[Meu pai me dizia sempre:_Desconfie de sujeitos certinhos que não bebem,não fumam; não transgridem nada nem falam palavrão.Provavelmente são infelizes,e pessoas infelizes são perigosas!]

Já fui jovem também,e por isso mesmo genioso e com jeito de que “sabe tudo”.
Por conta disso perdi algumas oportunidades de trabalho e até afetivas.
Fazer o quê? Arrepender-se não adianta.Resolvi aprender.
Porque existem algumas frases que eu não suporto escutar:
_Eu não te disse?
_Ah!se eu tivesse feito diferente...
_Se eu fosse voce...(essa é irritante!)
_Eu sabia que ia dar nisso!!
_Eu bem que te avisei...

Essas frases com ares propedeutas são,no mínimo,descabidas.
Cada um tem seu próprio Tao (do Taoísmo,caminho).E encontrá-lo não significa ir de encontro aos anseios de seus pais,amigos ou companheiros.Na jornada difícil da busca do Tao,sempre aparece alguém para te dizer – eu não faria isso se fosse você (olha a frase aí!)!
Ou então – esse cara não serve prá você!Ou ainda – esse seu trabalho não dá dinheiro (essa é medonha!Trabalho tem que dar prazer,antes de tudo!)!

Novamente – a meta é ser você,e esse,acredite,é o começo da realização.Porque o Tao,meu bem,nunca termina.Para o Taoísmo,o segredo é descobrir a porta que abre o seu caminho,que é só seu!

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