Querida Lilian,
Estou aqui novamente,escrevendo-te como se as letras pudessem minimizar a distância,e consequentemente,a saudade.
Lembro-me querendo esquecer – a nossa última briga.
Nem foi exatamente uma briga,mas não posso e não devo dar-me ao luxo de esquecê-la.Sinceramente,não entendi a tal “falta de romantismo”.
Voce insistiu,insistiu;e eu lá,procurando significado em uma “queixa” sem propósito.
Até agora,meu bem...até agora.
Ontem à noite,tentando conciliar o sono,só tinha ouvidos para o canto dissonante de um galanteador suspeito – um gato negro como ébano,enamorado que estava por minha gatinha de estimação.
Antes irritado,logo fui percebendo a magia daquela serenata um tanto desafinada,mas repleta do seu tão falado “romantismo”.
Alheio à opinião do mundo,o gato declarava suas intenções com a audácia e o despreendimento dos jovens,enquanto dentro de casa minha gatinha aguçava os sentidos e quase com desprezo continuava ali, deitada ao meu lado.
Parecia querer colocar-se na posição da “donzela difícil”,e forçar seu pretendente a declarar seu amor mais e mais alto,como toda mulher que se preza aprecia.
Ah! meu amor;que mulher não se enleva quando um homem declara sua paixão para que todo mundo ouça!
É o tal do romantismo,presumo.Aquele,do qual você me segredou sentir falta;e eu sequer entendi,meu bem...e sinto muito.
Enquanto pensava em como esse tal de romantismo vai aos poucos desaparecendo do mundo,imaginava nosso infante galanteador empunhando uma bela guitarra espanhola,e ao som de seus miados profundos destilando uma pungente melodia de paixão e – por que não – com o erotismo dos beijos de Rodolfo Valentino.
Que mulher se furtava a um arrepio quando,no início do séc.XX,esse saudoso ator do cinema mudo era um sheik de hábitos brutos e lábios “calientes” ?
Nesse mundo travestido de modernidade,os suspiros se perderam na lembrança,o tal romantismo não tem espaço,e um certo restaurante em Casablanca despediu seu pianista inesquecível.
Ainda entoando seu melancólico arranjo,o gato apaixonado me lembrou que à muito tempo não canto para você,nem declaro meu amor,nem exponho meus sentimentos sem pudor nem limitações.
Enquanto ele cantava,observava minha gatinha.Enlevada,com ares de desdém,ela espera apenas que o mundo todo saiba que seu amante é também seu amor,para aí sim permitir-se a entrega...e a paixão!
Como somos tolos,meu bem.E como vivemos num mundo estranho,onde se conversa através de um teclado,onde o estar apaixonado é quase embaraçoso.
John Lennon já dizia que “vivemos num mundo onde não se pode demonstrar o amor,nem mesmo mostrar o amor;mas a violência está aí,exposta para que todo mundo a veja!”
Não quero fazer parte dessa triste constatação.
Nem preciso ser um gato para reconhecer que o romantismo ainda existe.
Ele está aqui,lá fora...em todos os lugares.
O romantismo não é um ato,uma flor,ou mesmo uma serenata embaixo de uma janela.Ele é vida,é totalidade...é o dia-a-dia que reflete a confiança nos próprios sentimentos.
E agora entendo que podemos vivê-lo em todas as coisas.Não é uma idéia que está presente apenas entre dois amantes.Ele é parte de nós,existe em cada situação onde o sentimento – de qualquer natureza – está presente.
Ele só precisa de espaço!
Me despeço de você com a saudade e a lembrança de um provérbio tuaregue
que diz:
“Tentar sufocar a saudade de quem se ama é como tentar matar a sede com areia.”
Ricardo
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