29 janeiro 2011

Continuando...

Asdrúbal II - Veículos

Voce lembra do Asdrúbal? O Asdrúbal era aquele fulano fanático por “coisinhas” para se experimentar nos supermercados. Provava de tudo e fazia a esposa corar de vergonha.
Bem ,isso é outra estória.O fato é que de tanto criticarem esse hábito – a esposa,os filhos,os amigos mais chegados – o Asdrúbal melhorou.E para evitar a tentação,nem foi mais aos supermercados.Nair (Nair é esposa do Asdrúbal) nem acreditava e contava para todos os conhecidos que o marido era “um novo homem”.
Lógico que tipos como o nosso Asdrúbal não mudam assim da noite para o dia.E lentamente sua mente foi criando novas perspectivas,levando-o a uma nova fronteira de possibilidades.
E o Asdrúbal descobriu o TEST- DRIVE de veículos!
Cá entre nós...essa estória de testar automóvel ou motocicleta não funciona muito bem.Uma volta no quarteirão não consegue te dar uma idéia exata de como é aquele veículo,como se comporta em curvas ou mesmo acelerações...
Até porque ninguém vai “encher o pé” no acelerador em um carro emprestado por um desconhecido que também não é o dono do carro.E se eu bater? Quem paga a conta? Eu? E se eu for um Zé-Mané sem dinheiro até para o ônibus? Porque ninguém pergunta quem você é num test-drive;nem se a carteira de motorista está vencida ou se sequer tem a carteira!
O fato é que o Asdrúbal começou aos poucos.Foi na Fiat e testou um Palio:
_E ai,Sr? Gostou do Palio? Vamos fazer uma simulação de financiamento?
_Olha,na verdade eu estou com um pouco de pressa,responde o Asdrúbal,mas no sábado eu passo aqui com mais tempo!
Na semana seguinte foi um Fox,da Volkswagen.E na outra ainda,um Prisma da Chevrolet.
Mas aos poucos ele foi ficando mais ousado.Sexta-feira passada “pilotou” uma Zafira,e quase chorou de emoção quando o vendedor,empolgado,disse:
_Sr.,por favor sirva-se de um café espresso e umas bolachinhas.É lá no fim daquele corredor! Temos também uma sala com TV;por favor,fique à vontade!
E o Asdrúbal ficou.E como ficou!
Cinco cafezinhos e incontáveis bolachinhas depois...
_Rapaz...adorei o carro.Mas vou trazer minha esposa para conhecer porque...sabe como é...no final é a mulher que decide!
E de desculpa em desculpa,lá ia o Asdrúbal passeando no carro dos outros.
Até que ontem ele passou do conta e foi longe demais – entrou na concessionária da Hyundai e sapecou,todo empoado:
-Rapaz,eu estou interessado no Santa Fé.Posso fazer um test-drive?
O vendedor abriu um sorriso de orelha a orelha:
_É claro,Sr....Sr....
_Asdrúbal,meu jovem;Asdrúbal de Mello Pimenta!
_Claro Sr. Pimenta,quer dizer,Sr.Asdrúbal.Já conhece o carro? Agora ele tem inovações,novo motor de 285 cavalos,câmera de ré e...
O Asdrúbal nem escutava o vendedor.Estava encantado admirando o realmente belo Santa Fé.Preto,bancos de couro...um luxo só!
Finalmente entraram no veículo.O vendedor ao lado,o Asdrúbal no volante...
_Cadê a chave?
_Sr.,a partida é sem chave,basta apertar esse botão.
_Ah! E cadê o câmbio?
_Sr.,basta selecionar no câmbio automático e acelerar.É muito simples e prático.
_Entendi.Mas podiam colocar uma TV maior.Nessa telinha aí não se enxerga nada!
_Sr.,esta é a câmera de ré.Muito útil,por sinal.Então...vamos lá?
O Asdrúbal começou a perceber que tinha dado um passo maior do que a pernas.Porque ele não entendia nada dessas “tecnologias” modernas.Automóvel para ele tinha volante,câmbio manual,e três pedais embaixo.Ah! E um freio-de-mão!
Mas agora já era tarde.E não queria passar a vergonha de confessar sua inabilidade com a tecnologia.
Aos trancos conseguiu chegar à rua, e o potente motor já anunciava sua verdadeira raça.
Devagar,mas bem devagar mesmo,o Asdrúbal seguiu “pilotando” o imenso utilitário esportivo.Até que o vendedor cutucou:
_Pode pisar,Sr...sinta a força desse motor!
E ele pisou.Mas como todo mundo acostumado a ter uma embreagem e ter de acioná-la para reduzir a marcha e acelerar,o Asdrúbal pisou...no freio.Esqueceu que o carro tem câmbio automático;aliás,nem pensou nisso!
O estrondo foi mais um baque seco,mas do ocorrido todo mundo sabia.O carro de trás havia se chocado com o Santa Fé,que freou tão bruscamente quanto foi a “pisada” do Asdrúbal.
O vendedor desceu;o motorista do carro de trás saiu xingando;juntou gente...berra daqui,berra dali...
E o Asdrubal? Cadê ele?
Nem se fez de rogado.Ciente da besteira que havia feito,o Asdrúbal saiu de fino logo que o vendedor desceu do carro e, misturando-se à confusão se mandou rapidinho deixando o pobre vendedor com um “baita abacaxi” para descascar sozinho!
Agora o Asdrúbal está lá,bem quietinho vendo TV.Teve de confessar a besteira feita porque chegou em casa branco como um lençol e apavorado de que pudessem localizá-lo e cobrar o conserto do Santa Fé.
Jurou,mas jurou de pés juntos que nunca mais daria asas a essas manias esquisitas.
Na TV,o apresentador do comercial anunciava:
_Experimente a lavadora de pressão marca Ajax.Voce passa o dia com ela,usa como quiser e se não gostar,não precisa comprar.Mas temos certeza que você vai adorar a lavadora Ajax!!

_Nair...vou sair um pouquinho e volto logo!!!

Esse é o Asdrúbal.Não conhece? ...prazer...

Asdrúbal


Ela nunca gostou de ir com ele ao mercado.
Não...não que ele ficasse chato,ou tivesse aquela mania de marido tão comum: _Deixa esse queijo,olha o preço dele...
Ou então:
_Prá que comprar esse desinfetante mais caro? Aquele outro ali é metade do preço,e você ainda ganha uma esponja!
Pelo contrário.Ele era desses maridos que gosta de experimentar tudo o que é lançado no mercado - hamburguer de avestruz ,queijo de ovelha,sabonete de berinjela...novidade era com ele.
E por conta dessa mania também tinha aquela outra,da qual ela se envergonhava – experimentar “amostras grátis” de supermercado!
Sabe aquelas meninas que ficam pilotando churrasqueirinhas fumacentas ao lado das gôndolas de lingüiças?
_Quer provar? Novidade...lingüiça de urso!
Aí ela te dá um guardanapo,um palito,e você fica lá,caçando uma rodelinha.
-O senhor gostou? Vai levar?
E você ,ainda mastigando a lingüiça pelando de quente,balbucia entre um e outro assopro:
_Próxima vez eu levo...puf...puf...
E tem aquela que está demonstrando um novo suco:
_Aceita um suquinho? E saca do pacote um copinho plástico que você jura que é menor que o dedal que sua avó usava para costurar.
_É de pêra da Mongólia,enriquecido com vitaminas A e C. Ah! Tem também o light,viu?
Você acaba tomando...fazer o quê? E desaparece mercado adentro!

Isso,se fosse você.Mas o Asdrúbal não.
Ele vai ao mercado para banquetear-se com essas delicias do marketing direto.Obedecendo a uma tática quase militar,o Asdrúbal inicia sua refeição perto do açougue,passa pela padaria e vai indo,sem interrupções,terminar o repasto perto dos iogurtes.
-Senhor,aceita um danone de batata-doce? a mocinha pergunta.
E ele aceitava...sempre!
E é onde sua mulher passava vergonha.
Porque o Asdrúbal nunca parava na “amostra grátis”.Sem a menor cerimônia,repetia os bocados até que,satisfeito,sapecava um:_Obrigado,meu bem...gostei mas hoje não vou levar!
A pobre moça nada pode fazer.Afinal,ele é um cliente.
Dia desses estavam apresentando um novo tipo de bolacha salgada.Talvez por questões de higiene,a empresa disponibilizava o produto em embalagens individuais,tipo motel.
O Asdrúbal parou e resolveu experimentar todas – com recheio de cheddar,de presunto;ervas finas,tomate seco...
Comeu de tudo,e no final emendou:
_Posso levar algumas para o pessoal lá de casa?
E encheu os bolsos de bolachas,e a mulher dele de vergonha.

Mas o que ele aprontou na semana passada ficou bem além da conta,e das estranhezas do Asdrúbal.
Estava ele e a mulher numa loja de departamentos,procurando um rack novo para a TV de LCD,quando ele bateu os olhos em uma placa no Setor de colchões:
EXPERIMENTE O NOVÍSSIMO COLCHÃO “TEXTURA DE SONHOS”.
DEITE-SE E FIQUE À VONTADE!!

O Asdrubal não agüentou.Ainda por cima,com convite!
Sua mulher ainda estava escolhendo o rack novo quando viu,estupefata,o Asdrúbal sentado na cama.Sem cerimônia ele tirou os óculos,as calças e,somente de cuecas deitou na cama enquanto gritava no meio da loja:
_Dá pra apagar a luz,por favor?


Ricardo

Trabalhar é bom! Mas em tantos anos aprendi que o fator humano é o grande problema - pessoas são complicadas;às vezes complicadas demais.

Arkham 24-jan-09


De segunda a sexta o pensamento vem,automático,como um dos primeiros flashs da manhã – daqui a pouco estarei “lá”.
O lugar é bizarro.E se parece ser um ambiente de trabalho é apenas porque é chamado assim.Os nomes das coisas são poderosos,e por vezes nos fazem acreditar que algo não é realmente “aquilo que é”.
Confúcio já dizia a mais de dois milênios:
“_Na verdade,no mundo dos homens nada muda.Apenas troca-se os nomes das coisas e tem-se a impressão de que elas mudaram.”
E é por isso que os afro-brasileiros se acham menos negros, e “empurrar” um produto virou telemarketing.Afinal,melhor ser chamado de “camada de baixa renda” do que de “bando de pobres”.
Muda?
Me volta à lembrança aquele local meio isolado,meio feudo...
As pessoas resvalam entre si como abelhas enxameadas – próximas,mas dificilmente se tocando.
Você já dançou num campo minado?
Já andou em corda-bamba ou algo parecido?

Imagine um lugar onde nada é o que parece,suas palavras podem ser tão facilmente distorcidas quanto uma notícias de jornal.Um lugar onde,quando menos você espera,tudo volta contra você.
A palavra da vez é sobrevivência.
Dissimular-se ruidosamente,como percebo em alguns dos “internos” dessa comunidade kafkiana.Passar quase desapercebido,como constato em outros.
Melhor ainda - ser você,sem ser você.
Concordar,discordando.Aceitar,sem anuência.
No Universo mitológico do herói detetive Batman,existe um lugar chamado Arkham...Asilo Arkham.
Para lá são enviados seus oponentes extravagantes,como o Coringa e o Charada,ambos retratos metafóricos de uma sociedade doente.
E muitas vezes o próprio herói se pergunta se seu lugar também não seria lá dentro,com eles.
Como me pergunto se,nesse Arkham batizado de “Local de trabalho”,faço parte dessa fórmula como componente,e não como espectador.

Muitas vezes olho à minha volta e não reconheço nada familiar – nem coisas,nem pessoas.Me pergunto porque ainda estou ali,e curiosamente sempre encontro uma motivação – ou será uma...desculpa?
Quanto tempo será necessário permanecer sob uma tempestade até que esqueçamos que estamos molhados?
Quanto tempo precisamos fingir para os outros até que estejamos fingindo para nós mesmos?

Nesse Arkham tristemente real soberanos vazios ostentam coroas de papel,e as pessoas prosseguem elogiando a “roupa nova do imperador”.
Mas...o imperador está nú,diz a voz da razão.
Mas a razão apenas sussurra,e por conseguinte jamais é ouvida.


R


“Mas eu não quero encontrar gente louca,observou Alice.
Você não pode evitar isso,replicou o gato.Todos nós aqui somos loucos.Eu sou louco.Voce é louca!
Como sabe que eu sou louca? indagou Alice.
Deve ser,disse o gato,ou não teria vindo aqui.”


Alice in the Wonderland – Lewis Carrol

27 janeiro 2011

Quanto tempo...

Faz uma data que não posto nada.Tem fases que são assim...meio "apagadas".
Mas a fase passou.
E quero voltar com um texto que não é meu,mas poderia facilmente ser!
E deixo a pergunta no ar: Eu sei que brasileiro é burro,acha que quer uma mãe em Brasília,assiste o Ratinho e briga nos estádios.Mas porque alguém assistiria Big Brother?



Minha noite perdida com o Big Brother Brasil
Publicado por: Regis Tadeu, especial para o Yahoo!, em 26/01/2011 - 14h54

“Se você não fizer isto, vamos trancá-lo em uma sala aqui no prédio e você será obrigado a ouvir todos os discos do Julio Iglesias ininterruptamente durante 90 dias, e alimentado apenas com bolachas recheadas com morango e suco de caju”. Foi exatamente desta forma amistosa e sutil que o pessoal do Yahoo! me convenceu a fazer algo inédito em minha vida: assistir a um capítulo de uma edição do Big Brother Brasil.

Sim, desde a primeira edição deste troço eu dizia com orgulho típico dos grandes patriotas do passado – como Churchill, Eisenhower, Thomas Jefferson e Dario “Dadá Maravilha Peito de Aço” - que jamais havia parado para assistir a um minuto sequer deste reality show. Claro que eu sabia da existência de alguns de seus participantes, seja por intermédio de pessoas amigas que tentavam comentar comigo a respeito do que acontecia na tal casa, seja pelo fato de algumas figuras oriundas de lá terem tentado a carreira artística e se dado mal. Quem não se lembra do tal de Ban Ban, um sujeito que parecia ter um queijo gorgonzola no lugar do cérebro e que tentou emplacar como comediante e como cantor de “funk carioca”, falhando miseravelmente em ambas as tentativas? E do tal de “Alemão”, rapidamente aposentado depois de uma efêmera tentativa em se tornar repórter?

Pois bem, aceitando o “gentil convite” do Yahoo!, lá fui na última terça-feira sentar em meu confortável e aconchegante sofá, armado com uma garrafa de Jack Daniel’s, uma garrafa de Coca-Cola, um balde com gelo e uns petiscos saborosos para assistir finalmente a um capítulo deste troço.

Logo de cara, fiquei sabendo que era noite de “paredão”, ou seja, um dos meliantes... ahn... quero dizer, participantes... seria eliminado. Os dois candidatos colocados em votação eram um tal de Diogo – um brutamontes que posa de sensível, mas que precisa cortar um abacate para saber quantos caroços existem lá dentro - e um tal de Maurício, um autointitulado “músico” que, ao rir, parecia ter 649 dentes na boca. O eliminado foi o "Sr. sorriso”, que foi inexplicavelmente ovacionado pelos outros integrantes da casa e saudado como herói do lado de fora. Ué, o cara foi eliminado e tratado como vencedor e “rei da cocada preta”? Que raio de jogo é este?

Uma tal de Natália começou então a chorar depois que o “Sr. cheio de dentes” foi botado para fora. Ué, se é uma competição, por que esta menina ficou com cara de quem acabou de enterrar um parente? Fico sabendo que foi ela quem colocou o tal sujeito no “paredón”. Mas... E daí? O mais incrível é que ela caiu aos prantos quando uma tal de Paula disse que ela era “séria e fechada”. Pô, chorar por causa disto é o fim da picada. Se ela então recebesse as mensagens que alguns leitores costumam enviar aqui para o Yahoo! em relação a mim e aos meus textos, ela cortaria os pulsos com uma serra elétrica!

Agora, a cena mais patética deste verdadeiro antro de estupidez aconteceu quando o tal Diogo, que havia concorrido com o “Sr. boca aberta” no paredão, ficou tão emocionado que, além de chorar como um bebê sem a sua mamadeira, ficou ajoelhado no jardim e repetia “eu te amo, Mau Mau” como se fosse um mantra. Ora, ou isto foi uma tremenda declaração de amor gay ou uma inacreditável demonstração de cara de pau por parte do tal zé mané, em um evidente “jogo para a galera”, para que todos se sintam comovidos e solidários em sua tristeza de plástico. Patético!

Para piorar, foram mostrados os... ahn... “melhores momentos” dos capítulos anteriores, que se resumiram a uma inacreditável “Festa do Vampiro”, com todos os participantes vestidos como se estivessem em uma espécie de “festa gótica do ridículo”. Por incrível que pareça, nada aconteceu a não ser as “periguetes” fazendo jus aos seus papeis e os “zé manés” fingindo que não estavam nem aí até o momento em que a cachaça bateu na cabeça, quando então passaram a olhar as meninas com a ansiedade típica que a gente vê em atuns defumados.

Um capítulo à parte é o Pedro Bial, um sujeito evidentemente culto, mas que age no programa como se fosse uma espécie de animador de bingo de fundo de quintal. Fiquei impressionado como ele, mesmo nos momentos mais animados, mostra uma disfarçada ironia ao falar com os participantes e com o público, buscando esconder o evidente desejo de estar muito longe dali e, ao mesmo tempo, tendo a consciência de que está falando com idiotas, sejam aqueles que estão dentro da tela ou em suas casas.

Quando acabou o programa, a única coisa que consegui fazer foi repetir as clássicas palavras do Coronel Klutz, interpretado pelo genial Marlon Brando, no filme Apocalypse Now: “o horror... o horror... o horror...”. Tratei de beber e comer o que restou em cima da mesa, certo de que havia desperdiçado preciosos minutos de minha existência assistindo a um bando de mentecaptos se portando como se estivessem em uma colônia de férias cuja grande atração é um curso de “auto-ajuda do nada”, ministrado por um dos seres mais asquerosos do planeta – um tal de Boninho, um sujeito que dirige o programa e que se vangloria de jogar ovos do alto de sua luxuosa cobertura nas pessoas que passam na rua. Bem, o que se poderia esperar de um sujeito destes?

Por fim, antes de dormir, fiquei com uma pergunta martelando na cabeça: “por que as pessoas assistem a este troço?”

*Regis Tadeu normalmente é colunista de música do Yahoo!. Foi convidado para falar de BBB 11 e, acredite, aceitou.