DESTINAÇÃO
Cézar Augusto era assim.
Aliás,Dr. Cézar Augusto.Advogado ,contador prático,profissional liberal; era assim que era conhecida essa figura mais do que popular.
Popular sim porque , lá pelo lado da Vila, quem morava era gente pobre;gente humilde que apesar de honesta e direita,sofria a descriminação do lugar.E diga-se de passagem,a vida lá não era fácil ,não.
Dr. Cézar, com o devido respeito, era assim. Meio gordo, meio baixo,jovial e sanguíneo;mais bom do que mau.Feito aquela gente toda que ,com ou sem diploma,vivia e sobrevivia no berço onde outrora tinha crescido a mãe,o pai ,o tio...o bairro de todos...
Teve a sorte e a teimosia de estudar.Diplomou-se em Direito e, todo mundo vaticinava:
_Agora o Cézar larga esse “muquifo”!Vai cê doto,e vai cê rico!
Conversa! O Cézar amava aquilo tudo;e tinha planos sérios e quase humanitários...
Ele tinha uma história.E se agora era um advogado,ainda assim continuava o Cézar que todo mundo gostava.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Cézar,na verdade,sempre fora um solitário.
Único filho branco de uma família negra,descobriu cedo que a brancura se devia à genética da mãe biológica que doou-o, sem pensar, à sua mãe negra.
Sua mãe, Dona Zulmira! Negra,pobre,cheia de filhos; e o terceiro companheiro “também” batia nela,coisa que ela
escondia por vergonha.
Dona Zulmira,em meio a oito filhos pretinhos como seus ancestrais,criou com o mesmo amor um sujeito branco,gordinho e chorão - o tal do Dr. Cézar Augusto.
Cézar não amava sua mãe.Ele a idolatrava!E a mãe de ébano dizia:
_Meu filho é advogado!Ele é dotô!!!
E chorava,feliz,com mais dois filhos professores de Educação Física, negros e fortes ;e uma bela mulata que cursava Arquitetura.
Dona Zulmira era mais feliz do jamais imaginara ser! Sua “prole”iria conquistar o mundo do qual ele só “sonhara”!!!
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Cézar,vinte e quatro anos,foi morar só muito antes que sua mãe adotiva achasse conveniente.Tímido,trabalhava calado e se divertia quase às escondidas.Gente desocupada o taxava,sem cerimônias,de bicha enrustida.Outros ,mais ousados,diziam que ele tinha taras estranhas e tão bizarras que nem é bom comentar.
E o Cézar,calmo em sua sistemática usual,ria sem graça das estapafúrdias alcunhas e denominações de sua pessoa.
Pois foi vivendo nessa languidez sem tempo que o Cézar,um dia, sentiu-se mal.
Caiu doente feito passarinho;sem fome,sem voz,sem alento.Doença sem nome,
aflição vazia; todo mundo ali, vivendo e morrendo o Cézar, o Dr. do bairro , aquele meio bonachão,meio garoto...o que ele tinha?
Ninguém sabia!!
Cézar adoeceu de verdade.Infecção, virose; sabe lá...
No leito,doente,a Morte veio; meio sonho, meio febre.Encostou assim,soberana,na cama de Cézar:
_Vim te buscar ,humano.Tua hora chegou !!!
Cézar duvidou dos próprios sentidos:
_Como assim? O que é isso? Estou enlouquecendo? Ah! essa febre doida...
_Voce ouviu,mortal! Eu sou a Morte,e vim cumprir minha missão absoluta!
Cézar,meio dormindo,percebe que é verdade.Apesar da doença turvando a visão,pensa por alguns minutos.E então retruca,quase sem medo – e como bom advogado:
_Não posso ir. Tenho pessoas que ,nesse momento,precisam muito de mim.Defendo crianças maltratadas,mulheres espancadas e homens injustiçados.Tenho minha missão,assim como voce tem a sua.
Meu destino é esse!!
Não, não me leve sem que eu tenha feito algo pelo que é minha responsabilidade.
Quando pequeno,percebi cedo que fui um ser jogado no mundo,que deveria superar minhas próprias tendências,que precisaria ser mais do que esperavam de mim para chegar a ser aquilo que eu mesmo esperava de mim.
Cresci pelos meus próprios parâmetros,ascendi à idéia da realização levando em conta a capacidade de me dar ao mundo,sem me preocupar com a aceitação ,mas sim com os resultados.Fiz advocacia para defender o direito intrínseco,e não o manual de boas maneiras dos escoteiros.
Não me interessam divórcios de abonados,mas sim entender como se pode doar um filho como se fosse um cãozinho,e porque não se premiam mulheres como minha mãe Zulmira, ao invés de premiar-se jogadores de futebol!
E ademais,tenho meu irmão para defender.Ele é errado,eu sei! Mas sabemos que só erro de pobre é feio; de rico é deslize ou esperteza! Ele precisa de mim se quiser sair daquele inferno da prisão!
Para os ricos,psicólogos.Para os pobres,borracha!Quero combater essa máxima doentia!
Dona Morte,pense antes de cumprir seu legado.Pense,e me dê mais uma chance...por favor...
A Morte baixou a cabeça escondida pelo manto ébano.Pensou célere ,e num instante declarou,a voz quase eloqüente no rosto fantasmático:
_Tua retórica,humano... me convenceu.Está decidido!
Não virás comigo hoje.Mas saibas que,quando vier te buscar,me farei anunciar com um estrondo glorioso !!
E assim foi-se,silenciosa,a Morte.E novamente o tempo retomou seu rumo.
Cézar,acreditem ,casou e teve dois filhos.
Dois meninos,para orgulho de Dona Zulmira que acreditava no Destino,em Pai de Santo e no Vasco da Gama.
A mulher do Cézar,negra como a mãe,era correta e dedicada,exatamente o contrário do que se pensa das mulheres que nascem,crescem e vivem na periferia das grandes cidades.Seu nome era Iraci,o mesmo nome da sua bisavó .Iraci era assim,sensual e brejeira,ideal para o nosso conhecido Cézar.
Feliz com a bela esposa e seus dois filhos,Cezar mais ainda encontrava motivos para ser um idealista – um justiceiro do subúrbio,um homem especial por ser simplesmente um homem.
Até que, misteriosamente, Cezar adoeceu novamente.
Doente como jamais houvera estado,Cézar passou noites e noites acordado,às vezes meio que absorto em meio à febre alta,às vezes tonto pela medicação .
Dores terríveis corriam seu corpo como ferroadas, e sua vista turva nem lhe permitia enxergar quem, em vão, tentava lhe dar algum conforto.
Dias se passaram ,eternos...e vários meses se passaram.
Seis meses depois o Cézar,apesar de enfraquecido,começou a esboçar uma significativa melhora.
Foi melhorando,melhorando...até que, numa manhã de outono,Cézar levanta-se da cama...
_Enfim,hoje sinto-me realmente melhor.Acho que quero um bom banho e ,quem sabe,algo perfumado.
Estou até faminto! Quem sabe um pãozinho bem quentinho e um copão de café-com-leite...
Nosso bom advogado estava feliz.Sem tonturas,sem dores,um vencedor pela segunda vez! Cézar ensaboou o rosto e, lâmina em riste,começou a se barbear.
Mirou-se no espelho e ao fundo ,esvoaçante,a Morte surgiu por detrás das sombras:
_Prepara-te ,humano.Tua hora é esta e,em breve,estarás vagando pelo meu Reino!
_Mas...como assim? Que estória é essa de Reino?
_Verás por si mesmo.E lembra-te: a luz de teus caminhos será fornecida por teu coração.Quanto mais escuro ele for,mais enevoada será tua jornada.
Cézar se recusava a aceitar!
_Mas, mas..não foi assim que voce me disse que seria. Me disse que , quando fosse minha hora ,voce faria um estrondo!Lembra-se..hein! Lembra-se?
A Morte, gélida, não se abalou:
_E eu não fiz isso , mortal? És louco a ponto de acusar-me de mentir?
Não te lembras da febre que te estonteava e cuja origem nenhum médico descobriu?
Não te lembras das vertigens que te fazia recordar a infância,teus medos interiores, e teus próprios atos do passado?
Não te lembras que ,em meio a delírios,vias teu falecido pai verdadeiro;e tua mãe que jamais conhecestes e que ainda se encontra vagando pelo pior dos Mundos,o Mundo Material? E quando vistes teus avós longínguos, e teu futuro impossível?
Não lembras da minha irmã, a Dor, açoitando tua carne como brasa,dor cuja origem ninguém soube determinar?
Não consideras estrondo sentir a urina deixando teu corpo como ácido corrosivo? Ou o odor fétido do teu hálito que provocava náuseas até nas pessoas que mais te amam?
E meu irmão mais novo ,o Sono,não te abraçava diàriamente roubando-lhe a vida durante muitas horas todos os dias?
O homem,o Dr. Cézar,o Cézar;baixou a cabeça e refletiu longamente.
Uma lágrima densa e perolácea, apenas uma , rolou pelo rosto belo apesar dos trinta e seis anos.
Pensou nos filhos,na mulher,e na mãe negra que cheirava a banho e tinha os seios cansados de quem nutriu muito mais do que nutriu-se.
Impávido e quase sereno,aceitou a verdade da Suprema Entidade.Olhou seu rosto refletido pela última vez e , sentindo o sal no canto da boca ,limpou-se com o punho e respirou com saudade.
_Preciso perguntar algo antes de ir,mas imagino que respostas sejam privilégios de santos,papas ou charlatães.
Sabes o quanto sou necessário!
Sabes que pessoas dependem de mim para que as coisas aconteçam – seja lá como chamam no Além,mas aqui chamam-se justiça,esposa,mãe,filhos...vida. Sou um homem jovem!Meus filhos...crianças.Minha mulher...jovem e bela.
Não faço mal a ninguém. Dou comida aos beija-flores e ajudo a comunidade dando aulas e ensinando essas pobres crianças “a pescar”.Não faço política nem vivo de dízimos.Responda-me,arauto dos tempos – porque agora???
A Suprema Entidade baixou os olhos invisíveis.Suspirou profundamente e,erguendo-se ao alto de sua Onipotência,respondeu:
_Humano...eu não sei...
O homem sorriu brevemente.Novamente enxugou lágrimas discretas e por fim,declarou:
_Pensando bem,nem preciso terminar de barbear-me.Talvez nem tenhamos barba no Além...
Cézar olhou o espelho pela última vez.
Nú e sem medo, resignou-se ao seu destino e seguiu a Morte.
A lâmina,caída no chão,tingiu de vermelho o piso branco e frio .
Cézar,o Dr. Cézar,foi encontrado morto poucos minutos depois por sua esposa,Iraci,esvaindo-se em sangue e com um corte profundo no pescoço...feito por navalha de barbear!
A autópsia fechou o caso: Suicídio!
Só não explicou porque o rosto do cadáver transparecia uma serenidade desconcertante.
Ou porque,durante o velório,uma jovenzinha de onze anos perguntou à mãe,meio cochichando:
_Mãe,o homem tá sorrindo.Ele tá sorrindo,mãe...
Dois minutos depois o rosto do Dr. Cézar,com um baque surdo, foi afastado para sempre desse mundo.
Tudo que restou foi o irritante apertar de parafusos secos.
R
Nenhum comentário:
Postar um comentário