O MOCHO 29/3/08
Hoje eu quero contar uma estória.
Isso porque eu sou piauiense ,e piauense que se preza adora um causo ou prosa diferente.
E como voce não é daqui e sim da cidade grande,acho que vai gostar de escutar.
Eu nasci em Bom Princípio do Piauí,uma cidade lá pro norte do Estado,e que hoje...veje bem,HOJE... tem mais ou menos uns 6000 habitantes.
Diz o tal do censo que em 1994 tinha 4003,mas uns morrem,outros nascem...uns viajam prá fugir de casamento no trabuco;outras fogem prá esconder barriga...vai tudo passar fome no Rio ou em São Paulo.
Esses meus conterrâneos parecem mexicanos querendo mudar para os States.Largam tudo,se aventuram,e depois descobrem que vão fazer para o americano aquilo que o próprio americano julga “ baixo” demais – limpar latrina e mendigar salários humilhantes!
Ave Maria,ninguém percebe que a pobreza é uma indústria! Todo lugar tem muito pobre,todo lugar tem alguém rico...poucos lugares tem justiça!
Mas voltando à estória,eu sei que meu avô paterno – que Padim Cícero o tenha – contou ao meu pai – de novo,meu protetor Padim Cicero o conserve em seus braços – que me contou numa noite de lua, lá na terrinha que a gente cuidava para o Coronel Damião,e que em troca pagava médico e farinha para a família toda – mais de quinze,contando com Vó Angelina - todo esse relato fantástico...ou não?
A estória se passou mais ou menos em 1925,ou 26...sei lá!
Mas a estória...corre assim...
_Um mocho...um mocho...Entrou um mocho na cidade!!
Quem gritava era o Zézinho do Anzol,moleque sapeca mas esperto que fabricava anzóis junto com seu pai,o pescador Severiano.Mas também era famoso por diabruras e pêtas com as quais se divertia como todo bom “moleque’’ que se preza.
Certa vez colocou goma arábica no pote de “glostora” do Seu Macedo,o barbeiro.Imagine só o que aconteceu com o povo que usava e abusava da brilhantina!
O João Bigode,o sapateiro,passava brilhantina em “outro” lugar além do vasto bigode,e todo mundo ficou sabendo porque ele teve de procurar o Dr. Manoel Lacerda prá cortar os fios grudados.Também...tira do penteado prá passar no “enrolado”! Eu,heinn!!
-Como,moleque?Um mocho?
_É...um mocho!Horrendo;o mais feio que apareceu em Bom Princípio!
_Mas nunca apareceu nenhum.
_Por isso mesmo,seu Juca.Que meeedoo!
A notícia se espalhou como cinza no vento.
_Socorro!Acuda!Tem um mocho na cidade!
_Um mocho?
_Um mocho?
-Aonde?
_Tá lá.Foi pro campanário.O mocho tá na igreja,pessoal!!
-Na igreja?Ai,meu São Cosme e Damião.E agora?
-É,e agora? E o Padre Pasquale?
_Tá dentro da igreja.Coitado! Quem vai ajudá-lo agora? Quem diria...um mocho;e ainda por cima,na igreja.
_Mas como pode? Nessa cidade católica;abnegada...justo esse castigo? Um mocho?
_É verdade,Palmira.E todo mundo sabe que esses mochos tem parte com ...voce sabe...ELE!
_Sshhhh! Não fala isso.
_Falo sim.Tem parte com ele...o CHIFRUDO!
_Aahhhhh! Cala-te boca,Otávia!
_Mas é! Larga a mão de ser besta!!
_Seu Agenor,dá mais uma.
_Não vou servir mais,não.Não é hora para bebedeira.
_E porque?
_Voce não soube? Temos um ...mocho na cidade!
_Um quem?
_Mocho ,seu burro! O pior dos castigos;o pior dos destinos;o arauto do Apocalipse...
_O senhor sempre teve fama de letrado.O que é um mocho?
_Bem...um mocho é...um mocho.Raios,quer pior do que isso?
_Isso o quê? Hiicc!
Na Câmara dos Vereadores,a notícia chegou com estrondo.
_Quer me convencer o nobre colega de que temos um mocho habitando nossa bela cidade?
_Todos o viram,nobre colega.Está lá,tocaiando no campanário,à espreita de um incauto do qual,obviamente,valer-se-á como refeição.
-Mas,que faremos?
E o Prefeito,até então calado,decidiu:
_Contrataremos o homem mais valente da região.Armado até os dentes,expulsará o temível demônio e livrará nossa cidade desse flagelo!Tenho dito.
_Mas ,Excelência...contratar com quê? A Prefeitura tá falida!
_Vamos aumentar os impostos.E criar um movimento Anti-mocho.Aí a gente diz que é epidêmico,que pode matar,etc...
Isso,isso mesmo,Sr. Prefeito,e todos aplaudiram.
E foram atrás do cavaleiro andante do sertão.
Ele existia? Claro!
Era nem mais nem menos do que Zéca Belarmino,alcunhado o “cão-diabo”! Caboclo ruim que nem a peste!!
Zéca Belarmino estava lá,no lugar de sempre,o botequim do Tonhão Cabrito.Tonhão Cabrito tinha esse apelido porque seu pai era uma figura conhecido por criar os cabritos mais viçosos da região.E conhecia a cabritagem como ninguém!
_Tonhão,cadê o hôme?
_Tá lá fora,seu Prefeito.Foi enrola um cigarrinho.
_Tarde, Zéca.Preciso falá contigo.
O Zéca Belarmino era homem de pouca conversa.Famoso por seus atos de valentia,causava medo na população que o considerava um “fio” do Demo;bicho ruim toda vida.O povo dizia que ele comia calango vivo só pra ver o sofrimento do bichinho! E pior,nem rezava nem entrava na igreja!
Zéca Belarmino cuspiu um nó de fumo e olhou de soslaio para o Prefeito.
_É o mocho,não é?
_É.
_Eu faço;e nem quero pagamento.Só quero um rolo de fumo novo,da capital.E um garrafão da “ boa” da adega de vosmecê.Topa?
_Topo.Voce precisa de armamento,Zéca?
_Não carece mais que meu facão e essa garrucha que o Padre Pasquale amaldiçoou só porque “apaguei” uns cabras que mereciam...
_Então,vamo lá ,hôme!
_Pois vamo!
O povo logo soube da empreitada suicida mas corajosa,do Zéca Belarmino.
Tido como coisa-ruim pela população,de repente lá estava ele,o Zéca,o cão-diabo,feito herói e salvador da cidade.
A criançada corria à volta dele enquanto,resoluto,Zéca Belarmino caminhava silencioso em direção à igreja.
Cada passo que dava,tiniam as esporas empoeiradas enquanto faziam ritmo com o facão embainhado.O sol já se escondia no horizonte,e criava uma atmosfera digna de um faroeste italiano.
Zéca Belarmino,o crepúsculo,o facão de quatro palmos se aquecendo na bainha de couro...e o povo correndo atrás; mas beemm atrás.
O “hôme” chegou na igreja e logo viu o Padre Pasquale,tremendo feito vara verde.
Em outras circunstâncias o Padre jamais permitiria a entrada do Zéca na igreja.À muito já o tinha excomungado e considerava o dito-cujo um “coisa-ruim”,como já dizia o povo.E a voz do povo...
Mas nesse caso até que tudo fazia sentido.Nada melhor que um “fio” do Demo para acabar com outro!
_O Mocho tá lá no campanário,Zéca.Cê tem de subir aquela escada atrás do altar.
_Eu sei,padre.Já fui coroinha,lembra? Ou não?
_Valha-me nossa senhora;lembro sim.E quero esquecer!Mas isso não importa agora.Se existe um resto de cristão dentro de você,tire essa coisa da cidade!
Zéca Belarmino,o homem mais valente do lugar,principiou a subida até o campanário.Passo a passo,degrau por degrau,o homem sem medo foi chegando,chegando...até que viu.
De costas para ele,o terrível mocho escutou sua respiração ofegante e,lentamente,virou-se e encarou-o com seus olhos enormes e flamejantes.O Zéca Belarmino não agüentou:
_Vige Santa,balbuciou quase sem voz.
De pernas bambas,a fala embotada,o valentão da cidade sentiu o sangue gelar nas veias e,sem controle,mijou-se todo feito criança de colo.
Devagar,mas com uma pressa danada,iniciou o trajeto de volta pela escada e já na porta da igreja,chispou correndo pela praça gritando que o próprio chifrudo tinha subido do inferno!
O povo,desesperado,rezava em coro enquanto Prefeito,Vereadores e o Padre Pasquale tentavam se entender.
_E agora,Padre?
_Só temos de orar pela vinda do Salvador,pois só ele pode nos livrar desse malefício.
_É o Apocalipse,gritava a população.O fim do mundo!
Arrependam-se enquanto é tempo!!
_Não posso esperar ninguém,padre.Fim do mundo ou não,eu sou o Prefeito – e quero continuar sendo!Temos de achar uma solução!
_Vamo botá fogo na igreja!
_Isso é heresia,seu Euclides.Não se incendeia a casa de Deus.
_Mas Padre,se o chifrudo tá morando lá,é sinal que Deus se mudou.Porque eu duvido que eles morariam juntos!
_Faz sentido,Padre,exclamou o Prefeito.E se isso for,na verdade,um teste de fé?
_Como assim...de fé?
_Pense bem,Padre.É pecado incendiar a casa de Deus,mas matar também é.
E Deus pediu a Abraão que sacrificasse seu filho em nome da fé,cometendo um pecado para provar sua devoção.Abraão foi lá,amarrou seu filho ,mas na última hora Deus interviu.Lembra? E se for algo parecido?
_Peraí,Prefeito,eu não sou Abraão;sou só um Padre!
_Oxente,e Abraão nem Padre era!
Discute daqui,discute dali,por fim o Padre toma coragem:
_Antes de incendiarmos qualquer coisa,eu vou entrar.Se ele é o “coisa-ruim”,eu sou o representante de Deus na Terra.Vou entrar orando e,com água-benta e esse crucifixo,vou tentar espantá-lo da igreja.Depois,vocês o derrubam na “bala”mesmo!
O pequenino Padre Pasquale nunca sentiu tanto medo na vida.Mas para salvar a igreja enfrentaria qualquer coisa.Até o chifrudo!
Armado com seu crucifixo de prata e água-benta,iniciou sua subida ao Gólgota,degrau por degrau da escada do campanário.
Ao chegar ao topo,deparou com ele,de costas...o famigerado Mocho!
Suando e tremendo,proferiu:
_Em nome da Santíssima Trindade,eu ordeno que...que..saias da casa de Deus! E aspergiu a água-benta copiosamente.
O mocho assustou-se,e virando-se para o padre,exibiu grandes e poderosas asas,enquanto emitia um grito agudo e lancinante,como se brotasse do âmago das trevas,os olhos flamejantes faiscando com o fogo do Inferno!
O pobre Padre Pasquale queria correr,mas as pernas não obedeciam.Seu terror era tanto que cortou a mão direita,tamanha era a força com que segurava o crucifixo de prata.Ao sentir o sangue quente escorrer pelas mãos,o padre acordou do pânico e saiu em debalada pela escada abaixo.
Já na rua,gritava para o povo:
_Queimem...queimem a casa do demônio.
E o povo,inda que assustado,percebeu o milagre:
_O padre...o padre...tem os estigmas de Cristo.Olha o sangue!
_É...o sangue nas mãos dele! Aleluia!
_Aleluia,gritavam em coro.
O Prefeito,depois dessa, não esperou mais.Ordenou que ateassem fogo à igreja e,rápidamente,o povo obedeceu.
As chamas em breve assumiram proporções bíblicas.E enquanto subiam pela torre,viu-se,em meio à fumaça,a figura quase fantasmagórica do temível mocho voando para longe do fogo.
_Olha lá...é o mocho!
_O mocho!
_Meus Deus...que horrível!
Mais à distância,um garoto de mais ou menos oito anos,mãos seguras com o pai,exclamou:
_Pai,aquele é o mocho?
_É,filho;melhor nem olhar.
_Mas pai...parece uma coruja!!
_Que coruja,moleque!Fica quieto!
Minutos depois, uma bela e imponente coruja de igreja,popularmente conhecida como mocho por não ter as “orelhinhas” características,pousava numa árvore grande.
Ao fundo,uma fogueira gigante reduzia a cinzas a bela igrejinha de Bom Princípio do Piauí.
Ricardo
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