A quem possa interessar
O adeus de um jornaleiro
Se estiver lendo essas mal traçadas linhas,saiba que já não pertenço a este mundo.
Meu nome...bem,não importa.Ninguém pergunta o nome de um jornaleiro.
Voce nunca reparou nisso?
Seja sincero: voce pergunta o nome do frentista quando abastece o seu carro? Ou o nome do motorista do ônibus? Ou o nome do jornaleiro quando compra seu jornal,sua revista favorita,ou mesmo figurinhas para o seu filho?
Quer saber? Voce não pergunta,e também não está nem aí!!
Voce sabe o nome do seu médico? Do seu mecânico? Da vendedora de Avon? Lógico que sabe! Mas do jornaleiro...
É por esse,entre tantos motivos,que estou dando fim a uma existência pífia,sem graça e sobretudo,sem reconhecimento: a existência fantasma de um – voce já adivinhou – jornaleiro,ou seja,eu!
Pense bem:
Jornaleiros levantam cedo.
Tão cedo que quando o infeliz está lá,levantando aquelas portas de correr,debaixo de uma puta chuva,ainda no escuro;voce está cá,despertando calmamente e sem stress.
Toma seu café,seu banho demorado...liga o seu carro do ano (jornaleiro quase nunca tem carro,porque nem ganha para tanto.E quando tem,é uma jabiraca velha que ninguém sabe nem o nome) e vai,feliz,para o seu escritório com ar-condicionado e uma secretária com um decote “abissal”. Vidão,né?
Jornaleiro não tem escritório,e quando tem um cafézinho para se aquecer,o raio do café está frio,congelando à míngua numa velha garrafa térmica jogada num canto da banca.
Lentamente,o dia se estende entre jornais,revistas,poluição e “pouca grana”.
Isso sem falar nos encalhes,que crescem à razão inversamente proporcional ao lucro.
Veja que irônico!
Quanto mais revistas - e mais trabalho – um jornaleiro devolve,menos ele ganha.Em tese,quanto mais “trampo”,menos grana.
Não é ingrato?
Francamente,cansei dessa vida!
Parece vida de prostituta.Quanto mais tempo ela fica “no ponto”,é sinal que faltam “clientes”!
Jornaleiro é assim.
Porque se ele vende bem,fecha a banca mais cedo,vai passear,tomar umas e outras;aproveitar a vida.
Mas se não vende fica lá,sentado feito um bobo,e torcendo para que algum “santo” compre uma Veja,ou Cláudia,ou até mesmo uma revista de fofoca.
Tem que sorrir sempre,mesmo se aquela gorda da loja da esquina revira a banca inteira,enche o saco,”empesteia” o ar com fumaça de cigarro e,quando vai embora,vinte minutos e 29 revistas “fuçadas” depois,não compra nada!
Não,não...para mim,chega!!
Estou dando um fim digno a essa vida “besta”.
Até porque,se eu não fizer nada,vou morrer lá mesmo,na banca – de câncer de pulmão,de frio,de calor,de tédio...isso se não morrer de fome antes!
Porque jornaleiro mesmo nem consegue almoçar.
Se vive de lanche,logo ganha uma gastrite ou mesmo uma baita úlcera.Se leva marmita,come fria e a prestação.Porque é só o coitado começar a comer,aparece gente prá pedir informação,comprar jornaleco ou revista barata.Revista cara,nunca!
Cara,isso não é vida.
Porisso estou aqui,preparando essa “fôrca” improvisada com fita de amarrar jornal.Tentei comprar uma corda boa,mas a grana não deu.Não vendi nada esse final de semana,nem no anterior,nem no outro...
Também pudera! Internet,assinaturas,concorrência desleal de supermercados... e até ambulantes! A banca,aquela com tom poético e ares de reduto cultural,está condenada como as feiras livres,os açougues , os sapateiros (eu nunca mais vi um.E voce?)...
Bom,está na hora.
E voce,que teve a paciência de ler esse desabafo até o final,dê uma força ao seu jornaleiro.
Pergunte o nome dele.
Prestigie a cultura lendo mais.A banca possui publicações para todos os gostos e bolsos.
Porque no dia em que as bancas de jornais forem apenas uma lembrança do passado,tenho certeza que sua magia evocará muita saudade.
Adiós
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