Mas antes de mais nada quero mandar meus respeitos sinceros a todas as mães do planêta.A senhora aí em Cuzco,o filho embrulhadinho nas costas...Dona Baleia-azul- como é difícil amamentar algumas toneladas de bebê...A senhora aí no Araguaia;duas horas de chalana prá levar o petiz para a escola! E a mamãe orangotango,a mamãe elefante...a faxineira no trem que leva o filho na creche;aí pega o ônibus e vai puxar vassoura o dia todo sem ser sequer chamada pelo nome - é só a faxineira!Na volta novo ônibus,novo trem...tem de fazer o jantar logo porque o maridão bebaço tá chegando - quer jantar e dar uma rapidinha para poder roncar até de manhã...
Aí tem a mãe adotiva,aquela que não pariu mas ama mais do se tivesse ...a mãe de aluguel,a mãe emprestada,a avó que é mãe e vai por aí afora...
Aí tem a Mãe dos brasileiros (credo) que se diz Presidenta porque alguns irresponsáveis a elegeram (pelo menos é o que diz a tal "urna eletrônica" - mais fácil de fraudar do que colar chiclete na campainha só prá aporrinhar os vizinhos.)
Seja lá como for e para quem for -Feliz Dia das Mães!!!
UM CONTO DE PAIXÃO
Marilda o amava ,e muito.O amava tanto que foi capaz de se casar com ele.É que Roberto não era exatamente o marido ideal.Era um bom sujeito;bom amigo,bom filho...alcoólatra.Roberto se orgulhava de beber desde os doze anos de idade.Bebia tanto que diziam que estava “curtido”pois nem resfriado ele contraía.
Dezenas de vezes Roberto pagara caro pelo seu hábito deselegante.Brigas,vexames,compromissos esquecidos;além das depressões quando,eventualmente,a bebida faltava-lhe.Sem contar os bons empregos que já havia perdido.Mas mesmo assim Marilda o amava.E dizia ,rindo feliz:
_Vou me casar com Roberto,e nunca mais ele passará uma noite só,buscando companhia no álcool.Ele bebe muito porque se sente sózinho!
Marilda ,que já era a essa altura uma das poucas pessoas próximas de Roberto,tanto fez que literalmente,carregou-o para o altar.E quando trocaram o beijo cerimonial,ela sussurrou baixinho:
_Nunca mais voce passará uma noite sequer sózinho.Te amo! E o Roberto,completamente grogue ,assentiu com a cabeça e começou a chorar,como todo bom bêbado emocionado.
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O tempo passou.O casal ,contráriamente ao esperado,tocava sua vida como podia, e
apesar dos problemas,bem.Roberto tinha um novo emprego,desses que um dos últimos
amigos nos arranja quando estamos desesperados.Era um serviço pesado,quase grosseiro,mas mantinha-o ocupado o tempo suficiente para esquecer um pouco a bebida.
Tão logo porém saísse do trabalho,lá estava Roberto polindo com os cotovelos os balcões desgastados dos seus redutos habituais,todos bares de péssima frequência e pouca higiene.
Saía lá pelas altas horas da noite,e caminhava sem pressa ,maldizendo em voz alta seu patrão,sua esposa,seu vizinho...seu destino.
Chegava em casa sempre ruidosamente e encontrava,dormindo em frente à T.V.,as formas suaves de Marilda,que acordava,escutava alguns maus-tratos e depois de servir o jantar simples,deitava a cabeça de Roberto no colo e esperava que dormisse,quando então também se recolhia.
Algumas vezes Roberto despertava no meio da noite e procurava Marilda.Se tivesse bebido muito,começava a contar suas mazelas que ela já conhecia de cor,e finalmente encerrava a noite chorando como criança.Marilda,enternecida,penteava com os dedos seus cabelos e dizia,bem baixinho:
_Voce nunca mais ficará sózinho,eu juro...
Outras vezes ,tendo bebido menos,Roberto acariciava brevemente a esposa e depois fazia amor com ela;ruidosamente como um alce,o álcool embaraçando os sentidos e o prazer.Marilda,sempre serena ,dirigia seus movimentos sem que ele percebesse,e na maioria das vezes,o sono o vencia ainda dentro dela.Ela olhava o corpo cansado,suando como uma usina,e o afastava constrangida.Era a única vez em que,antes de dormir,chorava.
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A bebida ficava mais saborosa a cada dia que passava.Roberto perdera de novo seu
emprego,e o álcool parecia excelente para esquecer .Vendeu alguns presentes do casamento e converteu-os rápidamente em pesadelos engarrafados.Marilda trabalhava dobrado,fazendo horas extras no trabalho e lavando roupa para os vizinhos.
A vida foi piorando,até porque Roberto jamais encontraria outra alma boa que lhe desse mais uma chance.
As idas e vindas ao bar tornaram-se um sistema de vida.Sózinho em casa o dia inteiro,o tédio roendo o pouco bom-senso que lhe restava,Roberto abria e fechava o bar com mais pontualidade que o próprio dono.
As discussões entre o casal ,ele sempre misturando ofensas ,depressões e aguardente,começaram a se tornar diárias,Marilda cansada de corpo e de alma.Ainda assim,na cama à noite,Marilda perdoava o destino e abraçava,desesperançada,o marido bafejante:
_ Estamos passando maus pedaços,meu querido.Mas tudo vai melhorar,tem de melhorar.
Logo,logo,iremos dar risada desses tempos.Sem dinheiro,eu sei .Sem emprego,também sei; sem destino...não sei não,mas não deixo a peteca cair...
E foi assim,sem peteca,sem certeza,até que num dia:
_Eu tô chegando,num tá vendo,ô tonta...tô que tô...sô mais aqui que em qualquer lugar; num escuta não? Eu já sei de tudo,viu?
Marilda acordou ,assustada e sem reconhecer seu cotidiano.Abriu os olhos colados e percebeu,na sombra que vinha do corredor,o marido irado.Levantou de sopetão e,olhos estalados,esperou o companheiro e seu arsenal costumeiro de ofensas .O marido chegou e portava ,sem cerimônia,uma pistola sem brilho e sem dono,dessas que ,meses atrás,pertenciam a garotos ricos com pais militares ou a assaltantes drogados com pais desconhecidos.
A arma chegou disparando.Uma,duas vezes e ,na terceira,Marilda despencava do mundo e batia o queixo contraído no assoalho quase podre.Sangue e destino,violência crua,Marilda ali,morta e sem razão para tal,vitíma sem causa ;abandono e medo...
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A noite que presenciou o crime se foi.A manhã chegou inexorável e cobrou dos olhos de Roberto um porque plausível.Não havia.Roberto ,apavorado ,pensava em se livrar do corpo incriminante e da arma assassina.O corpo ,achava,jogaria na represa próxima.A arma ,enterraria num buraco qualquer e de resto fingiria que a mulher o abandonara.Afinal ,motivos não lhe faltavam.
O álcool,tingindo-lhe os sentidos,faziam-no ver coisas onde não havia,ouvia sons estranhos e pessoas que jamais haviam existido.Mas ,ainda assim,dominado pelo pavor e pelos maus instintos,embrulhou a esposa num velho cobertor surrado e,amarrando-a descuidadamente,começou a pensar em como a retiraria de casa.
Sentou sem vontade no velho sofá e começou a relembrar a noite anterior.Lembrou que estava lá,no bar,e que dois estranhos começaram a conversar com ele,perguntando coisas sobre o bairro e sobre os costumes das pessoas...puxa vida,as pessoas conhecidas e quem sabe,amigas.
Roberto não falou nada,mas acabou comprando uma pistola velha e negra como o balcão do bar.
A pistola,disseram os dois ,estava carregada e por isso era um pouco mais cara.E Roberto,sem sequer pensar ,comprou a arma e pagou,na hora,com o dinheiro obtido de um belo faqueiro que seu irmão dera de presente de casamento.
A arma fez Roberto sentir-se forte.Achava que a mulher o enganava;afinal não o aceitava a pelo menos tres semanas.Seu desejo infantil,aliado à coragem voluptuosa da bebida ,o fizeram taxar sua mulher como algo menos do que correto.Raivoso,Roberto entrou em casa e,sem sequer perguntar a quem interessaria essa bobagem,tirou a limpo a vergonha e a macheza.Matou não sem dó;matou sem motivo...
Sua ignorância agora era seu pior algoz.Sem possibilidade de remover o corpo nessa altura frio e enrijecido ,largou-o na cozinha,e entregou-se novamente à bebida e seus fascínios.Por medo, resolveu dormir na sala.Não mais adentrou à cozinha que,a essa altura,trinta e seis horas depois do ocorrido,cheirava a um frigorífico sem geladeira e sem dono.Pensava nos vizinhos e se porventura tinham escutado os tiros.Provávelmente sim,mas tiros,naquele bairro eram comuns e quem os escutava preferia fingir que não o tinha feito.
Roberto,esquecido em algo que beirava demência e embriaguez,às vezes sentava ao lado do corpo embrulhado e chorava,aos soluços como uma criança,e sómente o odor cáustico o afastava para outro aposento...para outro pesadelo acordado...
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Seis dias se passaram e nesse período,Roberto não comeu .Mal bebeu algo senão o conteúdo dos seus garrafões que,religiosamente,conservava em casa.Marilda,ainda envolta no cobertor,era um corpo inchado e destilando coisas que nem mesmo Roberto suportava.A casa,antes habitável,era um antro fétido e macabro,os insetos povoando as paredes e se aglutinando nas esquinas dos quartos.
Na noite do sexto dia,Roberto,bêbado como nunca,deitou-se no quarto que antes era do casal e,quase desacordado,escutou ruídos na sala.Pensando estar ouvindo mais um fantasma etílico,riu sem vontade e virou-se,infeliz,contra a parede.Os ruídos viraram passos abafados e ,sem anunciar-se,pele enregelada encostou em Roberto e forçou para baixo o colchão barato.Roberto,agora sim amedrontado,sugou o ar à sua volta e sentiu o odor acre da morte.Marilda estava ali, ,olhando para ele com as órbitas vazias,cheirando a loucura,o hálito telúrico pedindo justiça sem som.
A voz embargada,Roberto teve certeza de que aquilo não era efeito da bebida. A urina descontrolada escorreu quente pelo colchão e Marilda,lábios quase imóveis,real como nunca,murmurou:
_Voce nunca mais vai ficar sózinho...eu juro...eu juro...eu juro...eu juro ...
E num último beijo,sómente dentes soltos caindo no chão ousaram desafiar o silêncio horripilante...
R 17/06/98

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