Eternidade
Ele sempre fora um grande cientista e,no seu tempo e para seu povo,uma mente brilhante.
Biologia,Mecânica Quântica;Astronomia...haviam poucas ciências que não dominava,e poucos idiomas que não falava.
Talvez por sua genialidade,vivia meio absorto em seu mundo cerebral e empírico;um mundo que os gênios conhecem bem como solitário e insaciante.
Havia desenvolvido inúmeros processos,fármacos e novas substâncias,mas sua fama vinha do fato de alguns seus “milagres da ciência” aumentarem consideravelmente a longevidade daquele povo.
Antes de suas “alquimias”,um cidadão comum poderia viver talvez mil ou mil e quinhentos anos terrestres.
Agora,todos ultrapassam folgadamente os dois mil e quinhentos,e isso de forma saudável e sem medo de deformidades ou doenças contagiosas.A Medicina havia alcançado um patamar jamais sonhado,e parte dessa conquista devia-se a ele.
Mas sua genialidade lhe rendeu um idéia fixa,e um sonho censurável – o da vida eterna.
Disposto a conquistar a imortalidade,o cientista entregou-se de corpo e alma a um projeto que lhe tirava o sono, o tempo e quiçá o bom-senso – um projeto que lhe daria o poder de jamais morrer!
Dir-me-a você,que lê essa estória,que tal meta é impossível e anti-natural.
Naquele mundo outrora hostil criaturas bizarras e com adaptações únicas evoluíram.
Algumas,cujo ciclo reprodutivo estava atrelado às movimentações dos doze satélites naturais,só acasalavam em ciclos de quarenta a cinquenta anos terrestres.A saída para a perpetuação e variabilidade genética foi que essas criaturas viviam dez,doze mil anos...
Mas... vida eterna?
O cientista investiu seu tempo e conhecimentos com afinco ,até que seus esforços foram recompensados. Armado com sua inteligência ímpar e a tecnologia fantástica de seu tempo,desenvolveu um soro com proteínas que ele próprio havia sintetizado - criou um soro que batizou apropriadamente de Elixir da Vida.
E como ninguém se atreveria a testá-lo,resolveu testá-lo em si mesmo.
E,numa manhã de um dia frio e solitário,inoculou nas próprias veias o atributo dos deuses – queria conquistar...a vida eterna.
O soro milagroso não funcionou de imediato.Ao contrário,a cada nova sessão na qual se auto-administrava o tratamento,sofria dores atrozes e náuseas que perduravam por dias a fio.
E tudo estava lá,sendo anotado paciente e diligentemente pela única cobaia possível – ele mesmo!
Julgava ter fracassado;desanimava às vezes.Mas insistiu com as penosas sessões.
Com o tempo,os efeitos colaterais do tratamento foram se tornando mais suportáveis.Até que um dia,num experimento qualquer,um equipamento sofreu pane e,sobrecarregado,explodiu!
O cientista foi atingido em cheio pela onda de choque.Embora protegido,pode ver e especialmente sentir suas mãos sendo literalmente consumidas pelo fogo químico.
Ninguém presenciara o ocorrido.Apenas alguns ouviram a explosão e,embora tenham atendido à emergência com prestreza,não tiveram tempo de constatar o milagre que só ele,o homem imortal,presenciou.
Como por encanto,sua mãos se regeneraram em menos de um minuto,e nenhum vestígio de qualquer ferimento podia ser notado.
_Mas,Dr....o senhor está bem? Como pode não ter se ferido? Essa explosão...
_Estou bem,ele retrucou;acho que tive muita sorte!
Em casa,pensando e ao mesmo tempo “comemorando” o seu sucesso,uma idéia inesperada acometeu sua personalidade sempre solidária e preocupada com seus semelhantes.
Para quê dividiria esse incrível”poder”?
Para quê daria aos outros o fruto máximo de sua genialidade e esforços?
Acostumado a trabalhar em prol do bem-comum e da melhor qualidade de vida para todos,o cientista se via dominado por algo que desconhecia – o egoísmo!
Os anos passaram!
O cientista,sempre incólume,não apresentava nenhum tipo de patologia e,mais interessante,não mais envelhecia.E,curiosamente,não comia nem bebia.Seu novo corpo lhe bastava!
Como eram muito longevos,os outros não percebiam com clareza e,quando o faziam,já estavam perto da própria morte.
Todos,menos ele!
Milênios se passaram.Seus familiares se foram;seus amigos se foram.
À sua volta,um mundo novo surgia,pois o progresso e as mudanças e aprimoramentos sociais são caracteristicas próprias das civilizações tecnológicas.
O cientista,trinta mil anos após ter se auto-inoculado o soro milagroso,arrependia-se de sua prepotência e apenas pedia para morrer.Em vão tentava dar fim à própria vida – a tudo era imune,e qualquer lesão curava-se,incrivelmente,cada vez mais rápido.
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A ciência avançada desse povo apontou o inevitável.Um meteoro de proporções gigantescas foi gerado a partir de um cataclisma planetário em um sistema estelar próximo;um evento que,embora estivesse a bilhões de quilômetros,encaminhava-se sem contenção para o sistema solar desse mundo – chocar-se-ia,em alguns milhares de anos, com o grande Sol vermelho que era o centro de dezenove planetas – três deles,habitados!
Essa raça jamais tinha se interessado por viagens espaciais.Sua principal linha cientifica objetivava seus cidadãos e seu meio ambiente.Salvo alguns vôos orbitais e algumas incursões mineralógicas às suas doze luas,pouco investiram em viagens interplanetárias ou interestelares.
Seria preciso muito tempo para desenvolver técnicas que pudessem deslocá-los do planêta condenado e, mesmo assim...deslocá-los para onde?
Os cálculos do impacto previam que este aconteceria com o Sol do sistema – as conseqüências,embora imprevisíveis,tinham algo de certo:seriam catastróficas para a maioria dos planetas,principalmente os mais próximos.
O cientista viu nesse evento sua grande possibilidade de encerrar uma loucura que começara a trinta mil anos atrás.
É bem verdade que ressentia-se do fim de sua civilização,do fim de tanto brilho cientifico e social.
Ressentia-se da lua mais próxima,recoberta por uma flora luxuriante e pitoresca.Quase um jardim particular,fazia as vezes de ponto turístico e lazer para seu povo!
Ressentia-se de tanto progresso obtido em milhares de anos em que ciência e sociedade tiveram de firmar um pacto avançado,pois entenderam que o progresso científico não é nada sem o desenvolvimento de uma sociedade igualitária e justa.Em termos políticos,esse era um povo que a muitas eras havia extinto as guerras,o crime e as injustiças sociais.
Longe de terem posturas socialistas,haviam percebido que a compreensão do próprio ser é quem gerava respeito e igualdade.Que a visão das suas próprias responsabilidades inviabilizavam deuses,ícones e totens.O ser responsável não delega suas responsabilidades para ninguém,sejam outros indivíduos ou deuses.
Ressentia-se de jamais ter gerado descendentes.Embora hermafrodita,seu povo só conseguia procriar quando um forte estímulo gerado de sua psique o impelisse à auto-fecundação.Ou ainda,quando dois indivíduos possuíam uma forte afinidade psíquica,aí sim eles fecundavam ou ao outro ,e os dois geravam descendentes.
Ainda assim,totalmente desesperado,ansiava pelo impacto do meteoro fatídico;impacto esse em que nada poderia restar intacto,incluindo-se ele próprio!
Seu povo passou os milênios seguintes pesquisando formas de “fugir”do inevitável.Muito se fez em termos de ciência espacial,mas nada tão complexo quanto uma astronave superlativa com tecnologia para navegar pela galáxia.
Chegaram a propor que uma “Arca” de resgate,bem menor,levasse consigo somente as mentes mais brilhantes e destacadas de seu mundo.
Mas,não! A moral sofisticada desse povo não via as coisas desse modo,e não haveria ninguém para escolher os “premiados”!
Muitos resolveram passar o resto de seu tempo ocupados com lazer e atividades culturais.Nesse mundo coordenado,muito era feito por maquinários e equipamentos automáticos.
O trabalho era essencialmente intelectual,e muitas horas eram ocupadas com prazeres dos mais variados.
Mas,veio chegando o momento fatídico.
Equipamentos de varredura espacial monitoravam com precisão absoluta a trajetória do meteoro.
Observatórios dos oito continentes trocavam informações com a velocidade da luz.
Até que o dia chegou!!
A imagem do gigante rochoso se descortinou no firmamento esverdeado do enorme planêta.
Em segundos,a temperatura subiu dezenas de graus,e o ar foi se tornando irrespirável.
Mais alguns minutos e cidades inteiras principiaram a incendiar;a atmosfera hiperaquecida pelo atrito foi gradualmente tornando-se um mar de fogo.
Os oceanos começaram a evaporar e, antes mesmo do impacto,praticamente toda a vida jazia calcinada.
O impacto foi tremendo!
E num choque de proporções siderais,meteoro e planêta se aniquilaram!!!
Ele nem calcula quanto tempo passou.
Lentamente foi despertando e percebendo-se imerso numa densa nuvem de poeira.
À sua volta destroços dos dois corpos celestes flutuavam,mantendo próximos devido à gravidade inerente.
Não havia ar para respirar mas ainda assim ele estava lá,consciente e...vivo!Vivo!!
Mais uns minutos e entendeu o que estava acontecendo.E agora,flutuando no espaço entre os restos de seu próprio mundo, o cientista deu um grito desesperado;grito esse que jamais seria ouvido!
Apenas a Eternidade anunciou-se dolorosamente infindável.
Não temos,ainda,Jornada nas Estrelas.Mas,podemos audaciosamente viajar além dos limites do possível. É isso que fazem artistas,escritores,visionários e sonhadores.
30 junho 2010
27 junho 2010
Este texto eu dedico a alguém capaz de fazer de uma banheira um oceano!
OS PEQUENOS PRAZERES DA VIDA
Dia desses ganhei um momento especial em meio a um dia comum e até um tanto “chato”.
Dia desses...ganhei um sorriso!
Não ,não foi uma risada.Não foi uma manifestação de mera alegria ou euforia.
Não foi,não!!
Foi um Sorriso,com direito a letra maiúscula e com ares de nome próprio.
Num rosto momentaneamente leve,num misto de cumplicidade feliz e um apertar de mãos que começa nos olhos e termina nos lábios e numa expressão confiante,lá estava ele,meu bom momento do dia.
Passei as horas seguintes tentando definir aquele fugaz movimento,e resolvi inclui-lo entre “os pequenos prazeres da vida”.
Eu tenho muitos...todo mundo tem.O que falta às pessoas é enxergá-los.
Fiquei lembrando das minhas manhãs.Do cheiro que exala do café feito na hora,e como é bom sentir seu sabor característico despertando lentamente os sentidos.
É nessa hora que saio ao quintal de casa – meu pequeno pedacinho de mundo – e contemplo o novo dia que começa.Tenho certeza que ,embora semelhante,jamais será como ontem,ou anteontem,ou...
Os pequenos prazeres da vida.
Vou até o quarto de minha filha e a cubro.Como sempre está com as cobertas misturadas em um turbilhão que jaz em todos os lugares,menos sobre ela.
Olho-a longamente e sinto,de verdade,uma onda sísmica de carinho,um amor sem tempo e sem nenhuma condição.
Ao lado dela,um gatinho aquecido mostra que a linguagem do amor se manifesta entre todas as criaturas vivas.Se dá o que se recebe...se recebe o se que dá.É uma Lei inexorável da Natureza.
Sento no computador e viajo.Enquanto espero que o dia realmente desperte,exercito minha prece – escrever.Não importa sobre o que,nem para quem.
Diante das letras reconsidero meu mundo,festejo meus bons momentos,e,algumas vezes,chego a chorar pelos maus.Mas,eles fazem parte.
Nossa dor faz parte.Somos nossas dores,como somos nossas alegrias.
Precisamos de nossas lembranças e do nosso passado.
Só não podemos “viver” para ele.
Enquanto escrevo ouço os primeiros pássaros literalmente “gritando” que ainda estão aqui.Felizes,não carecem de deuses nem de vida eterna.Vivem o agora,criam seus filhos e compõem o mundo sem necessitar de “motivos”.
Me enche de orgulho a valentia desses infantes.
Um velho conhecido,um belo Bem-te-vi macho,canta todos os dias no mesmo mourão ao lado de casa.
Dei-lhe até um nome – Papillon,como no filme de Steve Mcqueen.
Para quem se lembra,Steve Mcqueen interpreta um presidiário que,após anos de sofrimento numa solitária,cerra os punhos nas grades e exclama aos seus carcereiros:
_Desgraçados,ainda estou vivo!
Igualzinho ao meu amigo Bem-te-vi,cantando sua liberdade para a humanidade que quer roubá-la dele.
Os pequenos prazeres da vida.
Enquanto busco outro gole de café,aproveito e olho minha filha novamente.
Meu amigo Papillon está berrando a plenos pulmões.
E a imagem daquele sorriso não me saiu mais da mente.
Percebo que não sou feliz.Ninguém deve ser feliz o tempo todo.
Mas sou sem dúvida,afortunado.
Minha vida é repleta de prazeres e bons momentos...os pequenos,e tão importantes,pequenos prazeres da vida.
Ricardo
Dia desses ganhei um momento especial em meio a um dia comum e até um tanto “chato”.
Dia desses...ganhei um sorriso!
Não ,não foi uma risada.Não foi uma manifestação de mera alegria ou euforia.
Não foi,não!!
Foi um Sorriso,com direito a letra maiúscula e com ares de nome próprio.
Num rosto momentaneamente leve,num misto de cumplicidade feliz e um apertar de mãos que começa nos olhos e termina nos lábios e numa expressão confiante,lá estava ele,meu bom momento do dia.
Passei as horas seguintes tentando definir aquele fugaz movimento,e resolvi inclui-lo entre “os pequenos prazeres da vida”.
Eu tenho muitos...todo mundo tem.O que falta às pessoas é enxergá-los.
Fiquei lembrando das minhas manhãs.Do cheiro que exala do café feito na hora,e como é bom sentir seu sabor característico despertando lentamente os sentidos.
É nessa hora que saio ao quintal de casa – meu pequeno pedacinho de mundo – e contemplo o novo dia que começa.Tenho certeza que ,embora semelhante,jamais será como ontem,ou anteontem,ou...
Os pequenos prazeres da vida.
Vou até o quarto de minha filha e a cubro.Como sempre está com as cobertas misturadas em um turbilhão que jaz em todos os lugares,menos sobre ela.
Olho-a longamente e sinto,de verdade,uma onda sísmica de carinho,um amor sem tempo e sem nenhuma condição.
Ao lado dela,um gatinho aquecido mostra que a linguagem do amor se manifesta entre todas as criaturas vivas.Se dá o que se recebe...se recebe o se que dá.É uma Lei inexorável da Natureza.
Sento no computador e viajo.Enquanto espero que o dia realmente desperte,exercito minha prece – escrever.Não importa sobre o que,nem para quem.
Diante das letras reconsidero meu mundo,festejo meus bons momentos,e,algumas vezes,chego a chorar pelos maus.Mas,eles fazem parte.
Nossa dor faz parte.Somos nossas dores,como somos nossas alegrias.
Precisamos de nossas lembranças e do nosso passado.
Só não podemos “viver” para ele.
Enquanto escrevo ouço os primeiros pássaros literalmente “gritando” que ainda estão aqui.Felizes,não carecem de deuses nem de vida eterna.Vivem o agora,criam seus filhos e compõem o mundo sem necessitar de “motivos”.
Me enche de orgulho a valentia desses infantes.
Um velho conhecido,um belo Bem-te-vi macho,canta todos os dias no mesmo mourão ao lado de casa.
Dei-lhe até um nome – Papillon,como no filme de Steve Mcqueen.
Para quem se lembra,Steve Mcqueen interpreta um presidiário que,após anos de sofrimento numa solitária,cerra os punhos nas grades e exclama aos seus carcereiros:
_Desgraçados,ainda estou vivo!
Igualzinho ao meu amigo Bem-te-vi,cantando sua liberdade para a humanidade que quer roubá-la dele.
Os pequenos prazeres da vida.
Enquanto busco outro gole de café,aproveito e olho minha filha novamente.
Meu amigo Papillon está berrando a plenos pulmões.
E a imagem daquele sorriso não me saiu mais da mente.
Percebo que não sou feliz.Ninguém deve ser feliz o tempo todo.
Mas sou sem dúvida,afortunado.
Minha vida é repleta de prazeres e bons momentos...os pequenos,e tão importantes,pequenos prazeres da vida.
Ricardo
Protesto!
Outra dia me perguntaram de quem ou de onde eu copiava os textos desse blog.Ah!vai se f...
Jamais criaria um blog para veicular as idéias de outros.A intenção desse pequeno espaço é divulgar o que "eu" escrevo,e quem me conhece melhor sabe e reconhece a minha pessoa nesses escritos.
Fica aqui meu protesto,OK? Prá quem perguntou...taí a carapuça,mané!!
Jamais criaria um blog para veicular as idéias de outros.A intenção desse pequeno espaço é divulgar o que "eu" escrevo,e quem me conhece melhor sabe e reconhece a minha pessoa nesses escritos.
Fica aqui meu protesto,OK? Prá quem perguntou...taí a carapuça,mané!!
Esse texto também é antigo,mas gosto dele!
FANEROGAMIA
Eram muitas; um milhão...cem milhões de flores todas juntas,num maremoto aveludado como a alcova de um mandarim...
Vistas do alto,lembravam realmente um oceano, extenso e esquecido dos males do mundo...as flores...
Na maioria vermelhas,recorriam à memória da paixão desenfreada;suscitavam lembranças de momentos de intimidade quase lúdica,mas impregnados de calor e desejo...
Milhões de flores vermelhas,milhões de beijos,milhões de corpos que à meia luz se confundiam com suor e pele,pêlos e paz...
Muitas outras,amarelas como ouro de ribeirão,recordavam os encontros e as longas conversas em meio a noites curtas;reviam a saudade e a meiguice, a falta e a entrega carinhosa...
Milhões de beijos em parques,cinemas e portões;milhões de lágrimas mudas,sorrisos e mãos entrelaçadas...
Outras tantas,arroxeadas e purpurinadas como uma fantasia,lembravam os momentos de risos profundos,liberdade e vida...
Milhões de olhares fugidios,charme e incerteza;
Milhões de taças de vinho adocicado,vida e morte,totalidade e vazio...
Algumas centenas eram quase negras,um negror avermelhado e tinto como sangue...violáceo como uma traição...
Outras ainda,alaranjadas como uma brincadeira de roda,salpicavam o oceano fanerogâmico feito crianças quase felizes,lembrando que a inocência é pouca,mas ainda existe...
Mas uma apenas,em meio aos bilhões de pétalas desconhecidas,era branca e pequena... a mais bela entre as maravilhas do mar multicor;
Lembrando que o branco é a união de todas as cores ,todas as emoções,risos e dores que compõem o mural do mundo, da vida e de todos os oceanos existentes...
Uma única flor branca,ausente e presente,toda e tão...
...minha flor,minha branca flor...
Minha... você...
RICARDO
Eram muitas; um milhão...cem milhões de flores todas juntas,num maremoto aveludado como a alcova de um mandarim...
Vistas do alto,lembravam realmente um oceano, extenso e esquecido dos males do mundo...as flores...
Na maioria vermelhas,recorriam à memória da paixão desenfreada;suscitavam lembranças de momentos de intimidade quase lúdica,mas impregnados de calor e desejo...
Milhões de flores vermelhas,milhões de beijos,milhões de corpos que à meia luz se confundiam com suor e pele,pêlos e paz...
Muitas outras,amarelas como ouro de ribeirão,recordavam os encontros e as longas conversas em meio a noites curtas;reviam a saudade e a meiguice, a falta e a entrega carinhosa...
Milhões de beijos em parques,cinemas e portões;milhões de lágrimas mudas,sorrisos e mãos entrelaçadas...
Outras tantas,arroxeadas e purpurinadas como uma fantasia,lembravam os momentos de risos profundos,liberdade e vida...
Milhões de olhares fugidios,charme e incerteza;
Milhões de taças de vinho adocicado,vida e morte,totalidade e vazio...
Algumas centenas eram quase negras,um negror avermelhado e tinto como sangue...violáceo como uma traição...
Outras ainda,alaranjadas como uma brincadeira de roda,salpicavam o oceano fanerogâmico feito crianças quase felizes,lembrando que a inocência é pouca,mas ainda existe...
Mas uma apenas,em meio aos bilhões de pétalas desconhecidas,era branca e pequena... a mais bela entre as maravilhas do mar multicor;
Lembrando que o branco é a união de todas as cores ,todas as emoções,risos e dores que compõem o mural do mundo, da vida e de todos os oceanos existentes...
Uma única flor branca,ausente e presente,toda e tão...
...minha flor,minha branca flor...
Minha... você...
RICARDO
26 junho 2010
Esse texto é antigo;mas acho que não enevelheceu!
Som interior
Para tentar alcançar a paz,sente no chão...feche os olhos e escute.Ouça seu próprio ruído.
Esqueça que um dia te disseram que para ser feliz você devia seguir um caminho.Os caminhos existentes já tem dono,e cada um deve fazer o seu.
Esqueça que para ser feliz precisa de outra pessoa;você é mais que suficiente,desde que não esteja só consigo mesmo.Se quiser dividir sua vida com alguém,faça desse alguém um companheiro de jornada – jamais a própria jornada.
Não pense que a riqueza material é soberana.Em nossa sociedade distorcida por símbolos vazios,bens materiais parecem sintetizar tudo o que se necessita.Não é verdade.
Esqueça os títulos e as patentes.Doutores e generais não são mais felizes que um pobre pescador sem sobrenome.O entendimento da vida não vem dos livros,nem dos teoremas.Ele começa e termina no ato de observar o mundo com critério,ponderar sem pressa e concluir sem preconceitos.
Esqueça os deuses e por conseqüência,os demônios.Deuses e demônios existem sim no coração das pessoas,representando a milênios suas esperanças e temores.Mais mal foi feito em nome de deuses do que bem,e de maneira nenhuma se é feliz através de idéias preconizadas e conceitos arbitrários.
Queimar pessoas,jejuar,promover guerras sagradas,apenas refletem o quanto a humanidade ainda busca longe de si aquilo que mais precisa – harmonia e entendimento.
Nem pense que para ser completo é necessário plantar uma árvore;os esquimós seriam todos infelizes.Também não pense que para ser lembrado é preciso escrever um livro;os analfabetos seriam covardemente segregados.E ter filhos também não é tão definitivo;se fosse,os inférteis seriam menos pessoas do que os outros.
Não ouça conselhos – eles vem geralmente impregnados com as experiências de outrem,e não servem para você.
E o mais importante – descubra sua própria verdade,que é diferente de todas as verdades existentes.Não se incomode se seu caminho não for o esperado pelos outros.As pessoas,mesmo que bem intencionadas,enxergam o seu caminho através da ótica que compreendem como certa.E é com essa boa intenção que criticam,julgam e não raro,condenam.
Sentado no chão,ouça seu ruído interior.Aprenda a música inaudível da sua própria verdade,e tente não mentir para si mesmo.
Verá que para ter paz é preciso,antes de tudo ,ser você.
RICARDO
Para tentar alcançar a paz,sente no chão...feche os olhos e escute.Ouça seu próprio ruído.
Esqueça que um dia te disseram que para ser feliz você devia seguir um caminho.Os caminhos existentes já tem dono,e cada um deve fazer o seu.
Esqueça que para ser feliz precisa de outra pessoa;você é mais que suficiente,desde que não esteja só consigo mesmo.Se quiser dividir sua vida com alguém,faça desse alguém um companheiro de jornada – jamais a própria jornada.
Não pense que a riqueza material é soberana.Em nossa sociedade distorcida por símbolos vazios,bens materiais parecem sintetizar tudo o que se necessita.Não é verdade.
Esqueça os títulos e as patentes.Doutores e generais não são mais felizes que um pobre pescador sem sobrenome.O entendimento da vida não vem dos livros,nem dos teoremas.Ele começa e termina no ato de observar o mundo com critério,ponderar sem pressa e concluir sem preconceitos.
Esqueça os deuses e por conseqüência,os demônios.Deuses e demônios existem sim no coração das pessoas,representando a milênios suas esperanças e temores.Mais mal foi feito em nome de deuses do que bem,e de maneira nenhuma se é feliz através de idéias preconizadas e conceitos arbitrários.
Queimar pessoas,jejuar,promover guerras sagradas,apenas refletem o quanto a humanidade ainda busca longe de si aquilo que mais precisa – harmonia e entendimento.
Nem pense que para ser completo é necessário plantar uma árvore;os esquimós seriam todos infelizes.Também não pense que para ser lembrado é preciso escrever um livro;os analfabetos seriam covardemente segregados.E ter filhos também não é tão definitivo;se fosse,os inférteis seriam menos pessoas do que os outros.
Não ouça conselhos – eles vem geralmente impregnados com as experiências de outrem,e não servem para você.
E o mais importante – descubra sua própria verdade,que é diferente de todas as verdades existentes.Não se incomode se seu caminho não for o esperado pelos outros.As pessoas,mesmo que bem intencionadas,enxergam o seu caminho através da ótica que compreendem como certa.E é com essa boa intenção que criticam,julgam e não raro,condenam.
Sentado no chão,ouça seu ruído interior.Aprenda a música inaudível da sua própria verdade,e tente não mentir para si mesmo.
Verá que para ter paz é preciso,antes de tudo ,ser você.
RICARDO
19 junho 2010
Eu tenho uma coletânea de textos rápidos que escrevo quando "pinta" uma idéia.Vou blogando aos poucos só prá relaxar.Hoje eu deixo dois deles!
LIDANDO COM A TECNOLOGIA
_Voce é casado?
_Humm.não.E você?
_Bem ,eu tenho uma pessoa.Mas sabe como é...nada fixo.
_Ah,tá.
_Voce trabalha?
_Claro.Sou publicitário em uma boa agência aqui mesmo,em BH.E você?
_Eu?Trabalho como modelo fotográfico,mas já fiz alguns papéis em peças de teatro.Na verdade,é o que eu curto mesmo...atuar!
_Legal! Mas é verdade que nesse meio todo mundo é homo,ou bissexual?
_Bom...mais ou menos.Na verdade,preciso confessar uma coisa – eu era homem!
_Como assim...era?
_É que eu operei.Mudança de sexo,entende?
_Bom,sendo assim eu também confesso.Eu também já fui mulher!
_Como assim? Com esse “negócio “enorme” aí,pendurado? Como pode?
_Operação.Implante peniano.Alguém doa, como uma córnea;ou simplesmente não quer mais...
_Quando foi isso?
_Janeiro de 2006.Porque?
_Dr. Mourão?
_Ele mesmo.O cara é famoso nessa área.
_Hospital Santa Clara? Terceiro andar?
_Isso mesmo.Como você sabe?
_Deus do céu!Fui comida por mim mesmo!!
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EU SÓ QUERIA QUE FOSSE DE VERDADE...
Eu só queria,ao menos uma vez,sentir um par de seios...verdadeiros!
Porque nunca mais encontrei nenhum...ou nenhuns...sei lá!
Você pega em um deles e sente aquela maldita bolsinha cheia de meleca,a tal prótese de silicone.Quando eu era moleque,me lembro que quem tinha silicone era cera automotiva,essa que a gente encera o carro no fim-de-semana.Quem diria...foi parar nos peitos da mulherada descontente com a natureza.
Aliás,diga-se de passagem,”não existe mulher satisfeita quando o assunto é o próprio corpo” !
Quando não são os peitos,é a bunda.É muito grande,é muito mucha,tem estrias...
(Eu nunca vi homem se incomodar com algumas estrias.)
Aí é a barriga.Tô gorda,tá saindo prá fora da calça,tô com cintura de kombi...e vai por aí!
E começam os planos.Academia,caminhada (Sempre em duas ou mais.Mulher nunca faz nada sozinha – sempre quer levar uma “amiga” junto!),regime da revista,dieta dos pontos...tudo isso em uma semana,a “milagrosa semana em que vou perder 5 kg”.
Voltando aos seios,me lembro de tempos atrás quando a gente – molecão de tudo – ficava babando no balouçar cadenciado das meninas que faziam esteira na academia.À medida que corriam,seus aparatos verdadeiros subiam e desciam com uma cadência e leveza dignas de uma ginasta olímpica.
Hoje eles balançam ainda,mas parecem o Steve Austin (lembra do “homem de seis milhões de dólares?” ) correndo na vinheta de entrada do filme.Só falta a música!
Não...não...melhor era antes,quando as mulheres eram simplesmente um produto “original de fábrica”!
Hoje você :
Não sabe a cor dos cabelos delas,já que eles mudam junto com a roupa.
(eu tenho uma amiga que combina a cor de “todos” os pêlos,ou seja,ruivo em cima ,ruivo em baixo.Pode?)
Não sabe,como disse,se os peitos são os dela ou de algum Pitangui de bueiro qualquer.
Não sabe se os lábios são dela,ou de um tal de “botox”!
Não sabe se os olhos são verdes,ou se as lentes é que são.
Ano passado saí com uma “fulaninha” que tinha olhos verdes no sábado, azuis na terça-feira,e,pasmem,violetas na sexta.Perguntei a cor original e ela sapecou: são castanhos.Por que?
Você nem sabe se ela é “boa” ou não.Isso porque a “gostosinha” com calça de lycra só transa no escuro,que é para que a gente não veja tudo o que “cai” junto com a tal calça de lycra!
(Parece mentira,mas tem calcinha com enchimento só para a boneca “fingir”que tem bunda.E na hora H,como faz?)
Soma-se a isso a “lipo”,a drenagem linfática (que porra é isso?),a plástica própriamente dita,banho de ofurô,de chocolate,de vinho...
É...a coisa está tão sofisticada que aquela loira gostosa,pele lisinha,olhos cor-de-mel,peitaço...tem um câmbio de Scania no lugar da bimbinha.E além de ter a força de um homem,quer que você seja “passivo”! Sai pra lá,jacaré!!
Caramba,eu só queria que fosse de verdade!
Tô errado?
LIDANDO COM A TECNOLOGIA
_Voce é casado?
_Humm.não.E você?
_Bem ,eu tenho uma pessoa.Mas sabe como é...nada fixo.
_Ah,tá.
_Voce trabalha?
_Claro.Sou publicitário em uma boa agência aqui mesmo,em BH.E você?
_Eu?Trabalho como modelo fotográfico,mas já fiz alguns papéis em peças de teatro.Na verdade,é o que eu curto mesmo...atuar!
_Legal! Mas é verdade que nesse meio todo mundo é homo,ou bissexual?
_Bom...mais ou menos.Na verdade,preciso confessar uma coisa – eu era homem!
_Como assim...era?
_É que eu operei.Mudança de sexo,entende?
_Bom,sendo assim eu também confesso.Eu também já fui mulher!
_Como assim? Com esse “negócio “enorme” aí,pendurado? Como pode?
_Operação.Implante peniano.Alguém doa, como uma córnea;ou simplesmente não quer mais...
_Quando foi isso?
_Janeiro de 2006.Porque?
_Dr. Mourão?
_Ele mesmo.O cara é famoso nessa área.
_Hospital Santa Clara? Terceiro andar?
_Isso mesmo.Como você sabe?
_Deus do céu!Fui comida por mim mesmo!!
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EU SÓ QUERIA QUE FOSSE DE VERDADE...
Eu só queria,ao menos uma vez,sentir um par de seios...verdadeiros!
Porque nunca mais encontrei nenhum...ou nenhuns...sei lá!
Você pega em um deles e sente aquela maldita bolsinha cheia de meleca,a tal prótese de silicone.Quando eu era moleque,me lembro que quem tinha silicone era cera automotiva,essa que a gente encera o carro no fim-de-semana.Quem diria...foi parar nos peitos da mulherada descontente com a natureza.
Aliás,diga-se de passagem,”não existe mulher satisfeita quando o assunto é o próprio corpo” !
Quando não são os peitos,é a bunda.É muito grande,é muito mucha,tem estrias...
(Eu nunca vi homem se incomodar com algumas estrias.)
Aí é a barriga.Tô gorda,tá saindo prá fora da calça,tô com cintura de kombi...e vai por aí!
E começam os planos.Academia,caminhada (Sempre em duas ou mais.Mulher nunca faz nada sozinha – sempre quer levar uma “amiga” junto!),regime da revista,dieta dos pontos...tudo isso em uma semana,a “milagrosa semana em que vou perder 5 kg”.
Voltando aos seios,me lembro de tempos atrás quando a gente – molecão de tudo – ficava babando no balouçar cadenciado das meninas que faziam esteira na academia.À medida que corriam,seus aparatos verdadeiros subiam e desciam com uma cadência e leveza dignas de uma ginasta olímpica.
Hoje eles balançam ainda,mas parecem o Steve Austin (lembra do “homem de seis milhões de dólares?” ) correndo na vinheta de entrada do filme.Só falta a música!
Não...não...melhor era antes,quando as mulheres eram simplesmente um produto “original de fábrica”!
Hoje você :
Não sabe a cor dos cabelos delas,já que eles mudam junto com a roupa.
(eu tenho uma amiga que combina a cor de “todos” os pêlos,ou seja,ruivo em cima ,ruivo em baixo.Pode?)
Não sabe,como disse,se os peitos são os dela ou de algum Pitangui de bueiro qualquer.
Não sabe se os lábios são dela,ou de um tal de “botox”!
Não sabe se os olhos são verdes,ou se as lentes é que são.
Ano passado saí com uma “fulaninha” que tinha olhos verdes no sábado, azuis na terça-feira,e,pasmem,violetas na sexta.Perguntei a cor original e ela sapecou: são castanhos.Por que?
Você nem sabe se ela é “boa” ou não.Isso porque a “gostosinha” com calça de lycra só transa no escuro,que é para que a gente não veja tudo o que “cai” junto com a tal calça de lycra!
(Parece mentira,mas tem calcinha com enchimento só para a boneca “fingir”que tem bunda.E na hora H,como faz?)
Soma-se a isso a “lipo”,a drenagem linfática (que porra é isso?),a plástica própriamente dita,banho de ofurô,de chocolate,de vinho...
É...a coisa está tão sofisticada que aquela loira gostosa,pele lisinha,olhos cor-de-mel,peitaço...tem um câmbio de Scania no lugar da bimbinha.E além de ter a força de um homem,quer que você seja “passivo”! Sai pra lá,jacaré!!
Caramba,eu só queria que fosse de verdade!
Tô errado?
Condolências à Arte
Foi com pesar sincero que recebi a noticia do falecimento de José Saramago.
Escritor brilhante,valente em suas convicções e inovador em suas interpretações,morreu inimigo da Igreja Católica que o excomungou por conta de seu livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.O livro - que coloca Jesus como um homem que “literalmente nasceu como todos,em meio ao sangue da placenta de sua mãe e o choro natural de qualquer bebê humano” - mostra uma visão que a Igreja não permite,assim como não admite que ele,Jesus,possa ter sido casado,ter tido filhos e problemas comuns a qualquer homem judeu.
Como o próprio Saramago afirma,Jesus é uma figura emblemática,riquíssima e histórica,independente do Credo ou da falta dele.
Vale também lembrar que Fernando Meirelles filmou uma das obras do escritor - Ensaio sobre a cegueira - se não me engano em 2008.
Escreveu ainda “As intermitências da Morte”, onde supõe um país em que as pessoas simplesmente param de morrer, e através daí explora as mais variadas reações de diferentes camadas da sociedade.
Foi Prêmio Nobel de literatura,e recebeu vários outros prêmios na área.
Deixo aqui uma frase dele que sempre me chamou a atenção:
“O CAOS É UMA ORDEM A SER ESTUDADA”
Foi com pesar sincero que recebi a noticia do falecimento de José Saramago.
Escritor brilhante,valente em suas convicções e inovador em suas interpretações,morreu inimigo da Igreja Católica que o excomungou por conta de seu livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.O livro - que coloca Jesus como um homem que “literalmente nasceu como todos,em meio ao sangue da placenta de sua mãe e o choro natural de qualquer bebê humano” - mostra uma visão que a Igreja não permite,assim como não admite que ele,Jesus,possa ter sido casado,ter tido filhos e problemas comuns a qualquer homem judeu.
Como o próprio Saramago afirma,Jesus é uma figura emblemática,riquíssima e histórica,independente do Credo ou da falta dele.
Vale também lembrar que Fernando Meirelles filmou uma das obras do escritor - Ensaio sobre a cegueira - se não me engano em 2008.
Escreveu ainda “As intermitências da Morte”, onde supõe um país em que as pessoas simplesmente param de morrer, e através daí explora as mais variadas reações de diferentes camadas da sociedade.
Foi Prêmio Nobel de literatura,e recebeu vários outros prêmios na área.
Deixo aqui uma frase dele que sempre me chamou a atenção:
“O CAOS É UMA ORDEM A SER ESTUDADA”
18 junho 2010
Falando de flores...
Estou deitado em meu quarto e olhando pela janela,e vejo um dia novo começando.
Penso em voce como sempre penso quando o dia começa,como sempre penso quando ele finda.Penso em amor,em entrega e paixão.Lembro de nós,dois amantes e cúmplices,penso e penso...
...meu coração...em chamas
...minha pele...em chamas...
...seu hálito me transporta e me inebria como jamais havia sentido;e enquanto me pergunto como alguém pode exalar perfume sem ser flor,também concluo que talvez seja isso...talvez voce seja uma flor...
...e quando penso no toque dos seus lábios,e lembro de como são suaves ao mesmo tempo que ardentes,e sinto o veludo da boca que me invade,volto a pensar se as pétalas das flores teriam a mesma textura,e o mesmo poder de alterar a realidade...
...e quando penso em seu corpo,e sinto a pele clara e macia dos seus seios,e lembro de como toco em suas costas nuas e cálidas...fico pensando se as flores também seriam tão envolventes e doces,e se também poderiam enlouquecer mais ainda um já louco apaixonado...
...e quando penso em estar com voce...e em estar em voce,sentindo em meu corpo o fogo que brota do seu;fico pensando se o interior das rosas e dos jasmins também seriam tão incontroláveis quanto a fúria dos elementos que nascem desse ato,e estremecem a realidade como um terremoto de sentidos...
...na próxima vez que eu tiver uma flor na mão,vou examiná-la com mais atenção...e tocar suas pétalas com mais cuidado...e passá-las em minha boca e tocá-las com o coração...e sentir seu interior com os dedos...e cheirá-la longamente...
...e concluir que,quando as flores evoluirem e se tornarem melhores,e quando as rosas e os gerânios puderem sorrir e chorar,aí sim estarão começando a parecer com voce...
RICARDO
Estou deitado em meu quarto e olhando pela janela,e vejo um dia novo começando.
Penso em voce como sempre penso quando o dia começa,como sempre penso quando ele finda.Penso em amor,em entrega e paixão.Lembro de nós,dois amantes e cúmplices,penso e penso...
...meu coração...em chamas
...minha pele...em chamas...
...seu hálito me transporta e me inebria como jamais havia sentido;e enquanto me pergunto como alguém pode exalar perfume sem ser flor,também concluo que talvez seja isso...talvez voce seja uma flor...
...e quando penso no toque dos seus lábios,e lembro de como são suaves ao mesmo tempo que ardentes,e sinto o veludo da boca que me invade,volto a pensar se as pétalas das flores teriam a mesma textura,e o mesmo poder de alterar a realidade...
...e quando penso em seu corpo,e sinto a pele clara e macia dos seus seios,e lembro de como toco em suas costas nuas e cálidas...fico pensando se as flores também seriam tão envolventes e doces,e se também poderiam enlouquecer mais ainda um já louco apaixonado...
...e quando penso em estar com voce...e em estar em voce,sentindo em meu corpo o fogo que brota do seu;fico pensando se o interior das rosas e dos jasmins também seriam tão incontroláveis quanto a fúria dos elementos que nascem desse ato,e estremecem a realidade como um terremoto de sentidos...
...na próxima vez que eu tiver uma flor na mão,vou examiná-la com mais atenção...e tocar suas pétalas com mais cuidado...e passá-las em minha boca e tocá-las com o coração...e sentir seu interior com os dedos...e cheirá-la longamente...
...e concluir que,quando as flores evoluirem e se tornarem melhores,e quando as rosas e os gerânios puderem sorrir e chorar,aí sim estarão começando a parecer com voce...
RICARDO
Estou sem cabeça prá escrever.À noite eu tento de novo.Mas vou deixar um texto rápido que escrevi a algum tempo sobre algo que conversava inda ontem com um colega de trabalho - a música brasileira.O texto continua atual,embora muito mais lixo musical tenha sido produzido até o momento.No tempo que eu estudava,universitário escutava Chico Buarque,Ivan Lins e Cazuza,passando por Gilberto Gil (antes de ser ministro)e MPB4.Vai ver hoje...
No mais,embora tenha sido escrito a algum tempo,dá uma lida em...
O DINÂMICO CENÁRIO MUSICAL (do Brasil)
Escrever sobre isso é moleza.Falar sobre Dinamismo na música atual brasileira é como dizer que se acredita em Duendes,e ainda colocar um adesivo no vidro do carro.
Dinamismo,do Aurélio:Atividade,energia(s.m.).
Até aí,tenho de admitir que atividade nos conjuntos atuais não falta.E veja porquê:
Com agilidade impressionante,os “ músicos” brasileiros sentam em bocas de garrafa,passeiam com carrinhos de mão,mexem e remexem em lugares que antes a gente só falava se fosse cochichando...e muito mais.E tudo isso enquanto “cantam” !!!
Aliás,eu sempre soube que é a voz quem valoriza o canto.Só se voz mudou de nome,engordou,e agora ao invés de uma banda,possui duas!Virou uma “bunda”!
Ultimamente,por causa de um tal “funk de quinto mundo” ( ai.ai...só no Brasil mesmo...) tem mocinha de “família” que depois de toda essa maratona,vai pra casa num tal de bonde do Tigrão.E pelo jeito,o que acontece nesse bonde daria nojo até em tigre de verdade.
Tem até éguinha ! Pode ??
Outra coisa em que estes virtuoses da música são dinâmicos é para comprar carros importados.O repórter pergunta:
-Ô fulano(qualquer nome ; tem até salgadinho!),o que você fez com todo o dinheiro que ganhou com o grupo?
-Bão,primero lugar comprei uma casa pra minha mãe ,que tá lá na Bahia.E outra pros meus irmão,que são só 22.
-E o resto, Presuntinho ? (pode ser Presuntinho?) O que você fez?
-Comprei 7 carros importados e uma casa com piscina prá enchê de mulher branca.De preto,já chega eu !!!
Na esteira da mesmice,fico pensando se alguém possui uma “plantação”de duplas sertanejas no fundo do quintal.Está ficando difícil até escolher nomes para elas.Tem tantas...
Vou dar uma dicas.Que tal Oficial e Paralelo? Peludo e Pelado? Gema e Clara (para mulheres)? Milionário e... epa! Com milionário já tem!
Pois o Dinamismo também está presente nessas duplas.É preciso “gás” para viajar de rodeio em rodeio o ano todo,e paciência para cantar as mesmas idiotices em todos eles!
Quanto ao verdadeiro Dinamismo que deveria haver na Arte maravilhosa da música,deixo com os bons de anos atrás.
Até porque CD’s do Cazuza,da Marina Lima,da saudosa Legião Urbana,e por que não dizer,de um Paulinho da Viola,Toquinho e Vinícius entre tantos, nunca venderam tanto.
Pelo menos nas mãos deles,ou de suas obras eternas,o Dinamismo está salvo.E a maravilhosa música brasileira também!
No mais,embora tenha sido escrito a algum tempo,dá uma lida em...
O DINÂMICO CENÁRIO MUSICAL (do Brasil)
Escrever sobre isso é moleza.Falar sobre Dinamismo na música atual brasileira é como dizer que se acredita em Duendes,e ainda colocar um adesivo no vidro do carro.
Dinamismo,do Aurélio:Atividade,energia(s.m.).
Até aí,tenho de admitir que atividade nos conjuntos atuais não falta.E veja porquê:
Com agilidade impressionante,os “ músicos” brasileiros sentam em bocas de garrafa,passeiam com carrinhos de mão,mexem e remexem em lugares que antes a gente só falava se fosse cochichando...e muito mais.E tudo isso enquanto “cantam” !!!
Aliás,eu sempre soube que é a voz quem valoriza o canto.Só se voz mudou de nome,engordou,e agora ao invés de uma banda,possui duas!Virou uma “bunda”!
Ultimamente,por causa de um tal “funk de quinto mundo” ( ai.ai...só no Brasil mesmo...) tem mocinha de “família” que depois de toda essa maratona,vai pra casa num tal de bonde do Tigrão.E pelo jeito,o que acontece nesse bonde daria nojo até em tigre de verdade.
Tem até éguinha ! Pode ??
Outra coisa em que estes virtuoses da música são dinâmicos é para comprar carros importados.O repórter pergunta:
-Ô fulano(qualquer nome ; tem até salgadinho!),o que você fez com todo o dinheiro que ganhou com o grupo?
-Bão,primero lugar comprei uma casa pra minha mãe ,que tá lá na Bahia.E outra pros meus irmão,que são só 22.
-E o resto, Presuntinho ? (pode ser Presuntinho?) O que você fez?
-Comprei 7 carros importados e uma casa com piscina prá enchê de mulher branca.De preto,já chega eu !!!
Na esteira da mesmice,fico pensando se alguém possui uma “plantação”de duplas sertanejas no fundo do quintal.Está ficando difícil até escolher nomes para elas.Tem tantas...
Vou dar uma dicas.Que tal Oficial e Paralelo? Peludo e Pelado? Gema e Clara (para mulheres)? Milionário e... epa! Com milionário já tem!
Pois o Dinamismo também está presente nessas duplas.É preciso “gás” para viajar de rodeio em rodeio o ano todo,e paciência para cantar as mesmas idiotices em todos eles!
Quanto ao verdadeiro Dinamismo que deveria haver na Arte maravilhosa da música,deixo com os bons de anos atrás.
Até porque CD’s do Cazuza,da Marina Lima,da saudosa Legião Urbana,e por que não dizer,de um Paulinho da Viola,Toquinho e Vinícius entre tantos, nunca venderam tanto.
Pelo menos nas mãos deles,ou de suas obras eternas,o Dinamismo está salvo.E a maravilhosa música brasileira também!
17 junho 2010
Soube que algumas pessoas queridas tem seguido meu blog.Obrigado pela paciência e pelo carinho. Eu escrevi esse conto porque sou um fã de aranhas.Para quem não sabe,elas existem a 300 milhões de anos e há mais de 30 mil espécies diferentes.Sua importância ecológica é enorme;sua complexidade biológica,fantástica.Pense nisso!
OITO PATAS
Aracnofobia é uma das formas mais intensas de fobia – o medo insano e incontrolável de...aranhas.
Não importa o sexo,a idade ou a compleição fisíca – perto desses curiosos animais de oito patas muito “marmanjo” vira “moça” e passa ao largo.
O que me lembra uma estória...
------------------------------------------------------------------------------------
Horácio chegou mais tarde do que o costumeiro.Dez,talvez dez e meia de uma noite que terminara em cervejas e piadas repetidas com amigos também repetidos.
Uma vez por semana eles se reuniam e “celebravam” o fato de que eram eternos companheiros de poker,bebidas e muita solidão.
Três não tão jovens solteirões que foram vencidos pela timidez,pelo falta de iniciativa e pelo fato de que não haviam nascido com rostos de anjo ou físicos de atleta. Mas tinham bons empregos e uma vida até tranqüila,a ponto de beberem somente bebidas de qualidade e colecionarem filmes em blu-ray!
Horácio é aracnofóbico.
Desde pequeno considera esses aracnídeos as criaturas mais apavorantes,mortais e traiçoeiras do Universo!
Aos cinco anos de idade,assistira uma ficção dos anos cinquenta,daquelas que reprisavam insistentemente nas antigas “sessões da tarde”.A película – eu me lembro dela – chamava-se Tarântula,e contava a velha estória de criaturas filhas da radiação.Nos anos cinqüenta tudo lembrava acidentes nucleares e coisas do tipo.Pois uma pequena Tarântula,exposta a essas experiências mirabolantes,adquiria a dimensão de uma casa e devorava cavalos e outros bichos.Meio apavorante mas...não para o Horácio.
Ele só voltou a dormir em um quarto sozinho aos doze anos;e mesmo assim foi por vergonha de que os amigos soubesse que dormia com seus pais!
A mera lembrança do filme antigo provocava-lhe náuseas e tremedeiras.
Mas voltemos àquela noite em que Horácio chegou um pouco mais tarde.
Fechou a porta do pequeno apartamento e,ainda no escuro,tateou em busca do interruptor de luz.Um clic! e...lá estava ela!
Como uma tocaia bem planejada,a imensa caranguejeira postou-se entre o corredor do quarto e a pequena cozinha,como se bloqueasse a passagem.
Passada a primeira onda de susto,sobreveio o pânico.Pensou em sair pela porta pela qual entrara mas,qual! Havia jogado,ainda no escuro,a chave da porta junto com sua jaqueta na cadeira costumeira,ao lado do sofá.E entre ele a cadeira estava ela,a agora “gigantesca”...aranha!
Mas,pensou ele,como esse “bicho”veio parar no apartamento? Estava no segundo andar e protegido pelas paredes de tijolos e ralos gradeados!
O prédio era dedetizado;seu próprio apartamento,também!
Enquanto o “Godzila” de oito patas o observava imóvel,começou a lembrar...
Por conta de seu medo,sempre procurou informar-se sobre os hábitos das aranhas e outros insetos a fim de não ser surpreendido como agora.
Sabia que esses poderosos artrópodes eram imunes a uma dedetização caseira –ela só servia para afastar os insetos que lhes servem de alimento.
Sabia que eles se deslocam grandes distâncias para caçar,e sua resistência é superlativa.
Também sabia que espécimes são constantemente transportados acidentalmente em caixotes de frutas,legumes e outros.Até serpentes são transportadas assim!!
Mas...peraí ! Meus Deus...a caixa de laranjas!!
A vizinha do lado era uma senhora com mania de saúde – natureba mesmo! E por conta dos radicais livres e da vitamina C,consumia semanalmente litros e litros de suco de laranja;e exatamente por isso comprava-as às caixas que o entregador do mercado trazia até sua casa em troco de uma “gorjetinha”.
Maldita seja a D. Lourdes e sua cítrica mania!
E enquanto pensava não notou que o leviatã multi ótico havia se deslocado alguns centímetros.Poucos,mas o suficiente para o colocaram mais perto do Horácio – assustadoramente mais perto.
O suor começou a brotar na testa de Horácio.O velho enjôo já se avizinhava e,de repente,apercebeu-se de que estava encurralado e à mercê do mais temível dos monstros – Horácio estava...perdido!
A aranha movia-se lentamente.A luz da lâmpada amarelada refletia-se na estrutura ocular de maneira fantasmática,e os pêlos afilados e abundantes davam-lhe uma feição de criatura nascida na Terra Média ou no Universo de Harry Potter.
E enquanto Horácio a fitava paralisado e impotente,o imponente octópode virou-se,de repente,e pôs-se a caminhar em direção à janela da sala,que encontrava-se,naquele momento...fechada!
E agora?
Se por acaso a sorte ajudasse,a aranha caminharia por sua conta em direção à janela,mas esta precisaria estar aberta.E para abri-la,Horácio teria de atravessar os “quilômetros” que o separavam da mesma,e atravessar o caminho interceptado pela aranha.
Pé ante pé,centímetro por centímetro,Horácio foi se deslocando em direção à janela fechada.No caminho,podia perceber a aranha gigante seguindo seus movimentos como uma cascavel experiente.Por detrás do sofá,sequer notou que poderia ter acesso à chave da porta jogada anteriormente junto com a jaqueta.
Esticando o braço e os dedos,destravou a tranca da janela e abriu-a com rapidez a janela metálica.
Quase perdendo os sentidos,voltou pelo mesmo caminho e aguardou o próximo movimento do inimigo que,inesperadamente,parou.
Quinze longos minutos se passaram até que a aranha retomou seus passos complexos em direção à janela – agora,aberta!
Mais alguns minutos e ela alcançava a janela,e conseqüentemente o lado externo do apartamento.
Alívio!
Horácio prontamente correu a fechar novamente a tranca,mas mesmo assim somente lá pelas duas da manhã conseguiu respirar normalmente.
Automáticamente ,iniciou um arrastão detalhado em todos os 48 metros quadrados de apartamento.Não encontrou mais nada!
Dia seguinte colocou o imóvel à venda e foi morar provisoriamente em um hotel.
Dez dias depois,com o apartamento vendido,mudou-se para o Arroio Chuí,onde diz que vai abrir um “comerciozinho”!
Alguém lhe disse que aranhas só gostam de lugares quentes!!
E Horácio,doente de pavor e inconsciente dentro de sua fobia,largou tudo.Lá no extremo do país,em sua mente seguro dos monstros que o apavoravam,começou nova vida.
As aranhas,maravilhas da Natureza,seguem seu curso.
E prosseguem alheias aos seus “inimigos” visíveis...seguem...simplesmente,essas notáveis criaturas...
As incompreendidas...aranhas!
R
OITO PATAS
Aracnofobia é uma das formas mais intensas de fobia – o medo insano e incontrolável de...aranhas.
Não importa o sexo,a idade ou a compleição fisíca – perto desses curiosos animais de oito patas muito “marmanjo” vira “moça” e passa ao largo.
O que me lembra uma estória...
------------------------------------------------------------------------------------
Horácio chegou mais tarde do que o costumeiro.Dez,talvez dez e meia de uma noite que terminara em cervejas e piadas repetidas com amigos também repetidos.
Uma vez por semana eles se reuniam e “celebravam” o fato de que eram eternos companheiros de poker,bebidas e muita solidão.
Três não tão jovens solteirões que foram vencidos pela timidez,pelo falta de iniciativa e pelo fato de que não haviam nascido com rostos de anjo ou físicos de atleta. Mas tinham bons empregos e uma vida até tranqüila,a ponto de beberem somente bebidas de qualidade e colecionarem filmes em blu-ray!
Horácio é aracnofóbico.
Desde pequeno considera esses aracnídeos as criaturas mais apavorantes,mortais e traiçoeiras do Universo!
Aos cinco anos de idade,assistira uma ficção dos anos cinquenta,daquelas que reprisavam insistentemente nas antigas “sessões da tarde”.A película – eu me lembro dela – chamava-se Tarântula,e contava a velha estória de criaturas filhas da radiação.Nos anos cinqüenta tudo lembrava acidentes nucleares e coisas do tipo.Pois uma pequena Tarântula,exposta a essas experiências mirabolantes,adquiria a dimensão de uma casa e devorava cavalos e outros bichos.Meio apavorante mas...não para o Horácio.
Ele só voltou a dormir em um quarto sozinho aos doze anos;e mesmo assim foi por vergonha de que os amigos soubesse que dormia com seus pais!
A mera lembrança do filme antigo provocava-lhe náuseas e tremedeiras.
Mas voltemos àquela noite em que Horácio chegou um pouco mais tarde.
Fechou a porta do pequeno apartamento e,ainda no escuro,tateou em busca do interruptor de luz.Um clic! e...lá estava ela!
Como uma tocaia bem planejada,a imensa caranguejeira postou-se entre o corredor do quarto e a pequena cozinha,como se bloqueasse a passagem.
Passada a primeira onda de susto,sobreveio o pânico.Pensou em sair pela porta pela qual entrara mas,qual! Havia jogado,ainda no escuro,a chave da porta junto com sua jaqueta na cadeira costumeira,ao lado do sofá.E entre ele a cadeira estava ela,a agora “gigantesca”...aranha!
Mas,pensou ele,como esse “bicho”veio parar no apartamento? Estava no segundo andar e protegido pelas paredes de tijolos e ralos gradeados!
O prédio era dedetizado;seu próprio apartamento,também!
Enquanto o “Godzila” de oito patas o observava imóvel,começou a lembrar...
Por conta de seu medo,sempre procurou informar-se sobre os hábitos das aranhas e outros insetos a fim de não ser surpreendido como agora.
Sabia que esses poderosos artrópodes eram imunes a uma dedetização caseira –ela só servia para afastar os insetos que lhes servem de alimento.
Sabia que eles se deslocam grandes distâncias para caçar,e sua resistência é superlativa.
Também sabia que espécimes são constantemente transportados acidentalmente em caixotes de frutas,legumes e outros.Até serpentes são transportadas assim!!
Mas...peraí ! Meus Deus...a caixa de laranjas!!
A vizinha do lado era uma senhora com mania de saúde – natureba mesmo! E por conta dos radicais livres e da vitamina C,consumia semanalmente litros e litros de suco de laranja;e exatamente por isso comprava-as às caixas que o entregador do mercado trazia até sua casa em troco de uma “gorjetinha”.
Maldita seja a D. Lourdes e sua cítrica mania!
E enquanto pensava não notou que o leviatã multi ótico havia se deslocado alguns centímetros.Poucos,mas o suficiente para o colocaram mais perto do Horácio – assustadoramente mais perto.
O suor começou a brotar na testa de Horácio.O velho enjôo já se avizinhava e,de repente,apercebeu-se de que estava encurralado e à mercê do mais temível dos monstros – Horácio estava...perdido!
A aranha movia-se lentamente.A luz da lâmpada amarelada refletia-se na estrutura ocular de maneira fantasmática,e os pêlos afilados e abundantes davam-lhe uma feição de criatura nascida na Terra Média ou no Universo de Harry Potter.
E enquanto Horácio a fitava paralisado e impotente,o imponente octópode virou-se,de repente,e pôs-se a caminhar em direção à janela da sala,que encontrava-se,naquele momento...fechada!
E agora?
Se por acaso a sorte ajudasse,a aranha caminharia por sua conta em direção à janela,mas esta precisaria estar aberta.E para abri-la,Horácio teria de atravessar os “quilômetros” que o separavam da mesma,e atravessar o caminho interceptado pela aranha.
Pé ante pé,centímetro por centímetro,Horácio foi se deslocando em direção à janela fechada.No caminho,podia perceber a aranha gigante seguindo seus movimentos como uma cascavel experiente.Por detrás do sofá,sequer notou que poderia ter acesso à chave da porta jogada anteriormente junto com a jaqueta.
Esticando o braço e os dedos,destravou a tranca da janela e abriu-a com rapidez a janela metálica.
Quase perdendo os sentidos,voltou pelo mesmo caminho e aguardou o próximo movimento do inimigo que,inesperadamente,parou.
Quinze longos minutos se passaram até que a aranha retomou seus passos complexos em direção à janela – agora,aberta!
Mais alguns minutos e ela alcançava a janela,e conseqüentemente o lado externo do apartamento.
Alívio!
Horácio prontamente correu a fechar novamente a tranca,mas mesmo assim somente lá pelas duas da manhã conseguiu respirar normalmente.
Automáticamente ,iniciou um arrastão detalhado em todos os 48 metros quadrados de apartamento.Não encontrou mais nada!
Dia seguinte colocou o imóvel à venda e foi morar provisoriamente em um hotel.
Dez dias depois,com o apartamento vendido,mudou-se para o Arroio Chuí,onde diz que vai abrir um “comerciozinho”!
Alguém lhe disse que aranhas só gostam de lugares quentes!!
E Horácio,doente de pavor e inconsciente dentro de sua fobia,largou tudo.Lá no extremo do país,em sua mente seguro dos monstros que o apavoravam,começou nova vida.
As aranhas,maravilhas da Natureza,seguem seu curso.
E prosseguem alheias aos seus “inimigos” visíveis...seguem...simplesmente,essas notáveis criaturas...
As incompreendidas...aranhas!
R
16 junho 2010
Se o assunto é cerveja...
Tempos atrás uma amiga a quem quero muito bem e que também segue esse blog,me sugeriu um texto no qual comentasse algo sobre o prazer de tomar uma boa cerveja.Quem me conhece sabe que sou um apreciador - e me arrisco a intitular-me gourmet - dessa milenar,clássica e saborosa mistura de maltes,lúpulo e bons momentos.Curiosamente,esse pequeno texto remeteu-me a uma saudosa lembrança,a amigos com os quais dividi bons e espumantes momentos,e a uma época feliz!
Segue abaixo a sugestão de minha amiga,e o que ela inspirou.
Cá entre nós...
Crescí no mundo de Patópolis para mais tarde, na adolescência, morar pertinho de Petrópolis e Teresópolis. Mas foi recentemente que conhecí um “meia-idade”, apreciador nato e representante típico de...Cervejópolis – Terra da bávara bebida onde, entre outras curiosidades tudo se paga com uma “loira gelada”, “mulata gelada” ou ainda “ruiva gelada”, de acordo com o momento ou o desejo. E, sem dúvida alguma, ninguém melhor que o próprio para escrever e descrever, tanto sobre esta bebida refrescante, de múltiplos sabores, quanto sobre momentos diversos junto a esta companheira inseparável. As próximas linhas serão suas, se assim o desejar, naturalmente.
Beijo
Se o assunto é cerveja... 04/06/2010
Me lembro que muito tempo atrás eu reclamava que cerveja era “amarga”. Bom,me lembro também que torcia o nariz para um bom Camembert,ou um lombinho apimentado.Paladar de criança muda com a idade?
Bem,posso citar as latas de leite Moça que eu sorvia com a avidez de quem está crescendo ; ia na lata mesmo – era só abrir um buraquinho. Muda,sim!!
Felizmente a gente cresce ,e começa então a apreciar as coisas boas da gastronomia e do universo mágico das texturas,temperos e sabores.
Porque não dá para negar : comer - e beber - é muito bom!
Eu tinha um colega de trabalho muito parecido com o Barney Rubble.Baixinho,cabelos claros,meio bonachão igual ao eterno companheiro do Fred Flintstone. Bem,o nome desse colega era Antonio,e devido à sua estatura,Toninho.O mais curioso é que ele trabalhava com outro colega,o Flávio;alto,moreno e barrigudo,ou seja,o Fred! A visão dos dois juntos discutindo como marido e mulher frequentemente remetia ao famoso desenho de Hanna Barbera. Era,no mínimo,hilário.
Bem,o Toninho era um sujeito simplório,de paz com o mundo dele e suas possibilidades um tanto limitadas.E ele falava:
_O negócio é comer,beber e o resto que se dane! E todo mundo ria da ingenuidade do pequeno colega,para o qual o resto das coisas não importava muito.
Ele saia do trabalho no seu Fusquinha; passava no mercado e comprava às vezes uma costela bovina,às vezes uma carne de panela...
Aí parava no bar costumeiro e a dosinha da “boa” já estava lá,no balcão.Depois ia para casa e preparava – sempre ele – o jantar para si e para sua família de esposa e quatro filhos. Novela,jornal e cama.E duvido que naquela altura a esposa fizesse algo mais do que dormir quando deitava-se com ele,mais tarde.Dia seguinte estava lá,de novo no trabalho,o sorridente Toninho.
E confesso que hoje,duas décadas depois,entendo muito melhor a sabedoria do meu prosaico e caricato colega.
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Mas o assunto era cerveja,não é? Pois vou resumir de maneira simples – a cerveja,esta bebida planetária cuja origem rivaliza com o vinho,e como o vinho pode ser elaborada com ingredientes vários originando inusitados sabores e consistências...pois é,a cerveja,ao menos para mim, está enraizada na sabedoria Toninho de “levar a vida”!
É o prazer que faz a diferença entre viver...e existir.
Junto com a visão da arte,a lembrança de um filme emblemático; o aroma do bolo que a vovó fazia,e que nunca mais você sentiu igual...a música da adolescência,o primeiro beijo...
Cervejas,doces da infância;bons vinhos e grandes peças de teatro.Momentos de prazer lúdico na beira de uma lagoa...sexo sem culpa e sensibilidade para,simplesmente,viver o bom da vida.Que é uma só,é breve,e muito preciosa para “gastarmos” com maratonas atrás de riqueza materiais e tristezas sem fundamento.
Uma boa cerveja me faz lembrar do distante Toninho.E aí sim parece que ela se torna ainda mais saborosa e companheira!
Toninho...à sua saúde!! R
PS. Nem sei se o Toninho está vivo.Ele era vinte anos mais velho do que eu portanto está,ou estaria,beirando os setenta anos.Mas naquele “pique” que levava a vida,aposto que está curtindo uma aposentadoria tranqüila,junto à sua “dosinha” de redenção e suas carnes de panela.
Quanto ao Flávio,um bom amigo,faleceu prematuramente aos 42 anos.Nós três fizemos muita “sardinha na brasa” e lingüiças na churrasqueira improvisada no próprio trabalho.Porque naquela época,em dias de pouco serviço,serventes e doutores faziam “festinhas” juntos;tomavam cerveja e riam.E nunca ninguém se tornou menor ou maior por conta disso! Pensando bem...fazem exatos vinte anos! O que me faz relembrar da importância de vivermos o “importante”.
Passa tãooo rápido!
Segue abaixo a sugestão de minha amiga,e o que ela inspirou.
Cá entre nós...
Crescí no mundo de Patópolis para mais tarde, na adolescência, morar pertinho de Petrópolis e Teresópolis. Mas foi recentemente que conhecí um “meia-idade”, apreciador nato e representante típico de...Cervejópolis – Terra da bávara bebida onde, entre outras curiosidades tudo se paga com uma “loira gelada”, “mulata gelada” ou ainda “ruiva gelada”, de acordo com o momento ou o desejo. E, sem dúvida alguma, ninguém melhor que o próprio para escrever e descrever, tanto sobre esta bebida refrescante, de múltiplos sabores, quanto sobre momentos diversos junto a esta companheira inseparável. As próximas linhas serão suas, se assim o desejar, naturalmente.
Beijo
Se o assunto é cerveja... 04/06/2010
Me lembro que muito tempo atrás eu reclamava que cerveja era “amarga”. Bom,me lembro também que torcia o nariz para um bom Camembert,ou um lombinho apimentado.Paladar de criança muda com a idade?
Bem,posso citar as latas de leite Moça que eu sorvia com a avidez de quem está crescendo ; ia na lata mesmo – era só abrir um buraquinho. Muda,sim!!
Felizmente a gente cresce ,e começa então a apreciar as coisas boas da gastronomia e do universo mágico das texturas,temperos e sabores.
Porque não dá para negar : comer - e beber - é muito bom!
Eu tinha um colega de trabalho muito parecido com o Barney Rubble.Baixinho,cabelos claros,meio bonachão igual ao eterno companheiro do Fred Flintstone. Bem,o nome desse colega era Antonio,e devido à sua estatura,Toninho.O mais curioso é que ele trabalhava com outro colega,o Flávio;alto,moreno e barrigudo,ou seja,o Fred! A visão dos dois juntos discutindo como marido e mulher frequentemente remetia ao famoso desenho de Hanna Barbera. Era,no mínimo,hilário.
Bem,o Toninho era um sujeito simplório,de paz com o mundo dele e suas possibilidades um tanto limitadas.E ele falava:
_O negócio é comer,beber e o resto que se dane! E todo mundo ria da ingenuidade do pequeno colega,para o qual o resto das coisas não importava muito.
Ele saia do trabalho no seu Fusquinha; passava no mercado e comprava às vezes uma costela bovina,às vezes uma carne de panela...
Aí parava no bar costumeiro e a dosinha da “boa” já estava lá,no balcão.Depois ia para casa e preparava – sempre ele – o jantar para si e para sua família de esposa e quatro filhos. Novela,jornal e cama.E duvido que naquela altura a esposa fizesse algo mais do que dormir quando deitava-se com ele,mais tarde.Dia seguinte estava lá,de novo no trabalho,o sorridente Toninho.
E confesso que hoje,duas décadas depois,entendo muito melhor a sabedoria do meu prosaico e caricato colega.
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Mas o assunto era cerveja,não é? Pois vou resumir de maneira simples – a cerveja,esta bebida planetária cuja origem rivaliza com o vinho,e como o vinho pode ser elaborada com ingredientes vários originando inusitados sabores e consistências...pois é,a cerveja,ao menos para mim, está enraizada na sabedoria Toninho de “levar a vida”!
É o prazer que faz a diferença entre viver...e existir.
Junto com a visão da arte,a lembrança de um filme emblemático; o aroma do bolo que a vovó fazia,e que nunca mais você sentiu igual...a música da adolescência,o primeiro beijo...
Cervejas,doces da infância;bons vinhos e grandes peças de teatro.Momentos de prazer lúdico na beira de uma lagoa...sexo sem culpa e sensibilidade para,simplesmente,viver o bom da vida.Que é uma só,é breve,e muito preciosa para “gastarmos” com maratonas atrás de riqueza materiais e tristezas sem fundamento.
Uma boa cerveja me faz lembrar do distante Toninho.E aí sim parece que ela se torna ainda mais saborosa e companheira!
Toninho...à sua saúde!! R
PS. Nem sei se o Toninho está vivo.Ele era vinte anos mais velho do que eu portanto está,ou estaria,beirando os setenta anos.Mas naquele “pique” que levava a vida,aposto que está curtindo uma aposentadoria tranqüila,junto à sua “dosinha” de redenção e suas carnes de panela.
Quanto ao Flávio,um bom amigo,faleceu prematuramente aos 42 anos.Nós três fizemos muita “sardinha na brasa” e lingüiças na churrasqueira improvisada no próprio trabalho.Porque naquela época,em dias de pouco serviço,serventes e doutores faziam “festinhas” juntos;tomavam cerveja e riam.E nunca ninguém se tornou menor ou maior por conta disso! Pensando bem...fazem exatos vinte anos! O que me faz relembrar da importância de vivermos o “importante”.
Passa tãooo rápido!
Esse texto fala de algo cotidiano - morte.Não leia se não quiser,mas o encontro é inevitável!
Por que não falar nela...?
A morte...
A morte é uma coisa estranha.Convivemos com ela nos filmes,noticiários,no dia-a-dia...mas ela sempre nos choca.
Vivemos uma sociedade que compreende menos a morte do que a mil anos atrás.Quando execuções eram espetáculos públicos e um terço das mulheres morria nos partos, uma ferida era uma porta para uma infecção mortal...
A mil anos atrás,a morte era uma constante à vista de todos e,embora temida,era um cotidiano presente.
Hoje vemos a morte através de telas e imagens virtuais.Mas a curiosidade sobre ela é inevitável,e temos várias séries de TV cujo tema é a própria...Morte.Como a tememos,e como ela nos fascina...
Por outro lado,conheço pessoas que não vão a velórios,pois temem olhar para uma pessoa...morta! Instintivamente,sabemos que um dia seremos nós.
E por mais que inventemos mundos pós-morte,por mais que imaginemos céus e infernos,nosso instinto básico é a sobrevivência,e simplesmente não queremos morrer.Tememos a não-existência acima de qualquer coisa; tememos o não acordar mais...tememos o que iremos sentir quando nada mais sentirmos.
A evolução cobrou um preço alto pela inteligência. A consciência de nossa transitoriedade é frustrante e cruel.Buscamos um sentido para a vida,quando na verdade estamos buscando um sentido para a morte.Para um pássaro,que não entende que tudo termina, só existe um sentido lógico para a vida – vivê-la! Que sentido poderia ser maior?
Para os Homo sapiens no entanto viver não é suficiente,pois tudo termina geralmente sem aviso nem previsão , transformando qualquer luta ou conquista em algo inócuo diante da fatalidade.É preciso algo mais que,via de regra,não sabemos exatamente o que é!
Voce está na sua cama,hoje; levanta,toma seu banho,sai...e não mais volta.A roupa estará lá,secando no varal. A louça não lavada ficará na pia,junto com a conta que não será paga e o gato faminto que esperará,em vão, você voltar para casa.
É,a morte não tem graça! É a piada sem graça da Natureza,o acinte máximo à arrogância e soberbia do bicho-homem.Por mais que transformemos e desprezemos o mundo e outros que ainda iremos conquistar,a morte está aí,lembrando-nos de que somos todos iguais; mosquitos,samambaias ...baleias...todos sujeitos às mesmas leis inexoráveis dessa Natureza!
A medicina coloca a máxima absoluta: preservar a vida,acima de tudo! E inúmeras vezes condena pessoas à morte fria de uma UTI .Bem, a Medicina faz sua parte – evolui,se arma com técnicas cada vez mais sofisticadas; prolonga a vida no afã desesperado de driblar o inevitável...e perde o jogo,sempre.
Talvez,e eu disse apenas talvez,o grande segredo das coisas seja pensar mais como pássaros e procurar ver ,no viver, o sentido real de tudo.Talvez olhar mais para o microcosmos do nosso dia-a-dia do que para a grandiosidade de coisas que ainda estarão aqui depois de nós.Construir mais sonhos do que muralhas,brincar mais do que trabalhar...
Parece lugar-comum mas não sei expressar-me de outra maneira.
Somos infelizes porque pensamos na morte a todos os momentos,e deixamos a vida meio de lado.Pensamos em construir um futuro,em termos de bens materiais; compramos seguros de vida e comemos só coisas naturais porque,sabe como é,comida sintética pode nos matar um dia.E olha que tem gente que se priva de tantas coisas só para ser um defunto “em forma”,sem barriga e com o colesterol lá em baixo.Só que aquele câncer não quis saber disso!
É,a morte não tem graça! Mas a vida sim; ela pode fazer toda a diferença!!
R
A morte...
A morte é uma coisa estranha.Convivemos com ela nos filmes,noticiários,no dia-a-dia...mas ela sempre nos choca.
Vivemos uma sociedade que compreende menos a morte do que a mil anos atrás.Quando execuções eram espetáculos públicos e um terço das mulheres morria nos partos, uma ferida era uma porta para uma infecção mortal...
A mil anos atrás,a morte era uma constante à vista de todos e,embora temida,era um cotidiano presente.
Hoje vemos a morte através de telas e imagens virtuais.Mas a curiosidade sobre ela é inevitável,e temos várias séries de TV cujo tema é a própria...Morte.Como a tememos,e como ela nos fascina...
Por outro lado,conheço pessoas que não vão a velórios,pois temem olhar para uma pessoa...morta! Instintivamente,sabemos que um dia seremos nós.
E por mais que inventemos mundos pós-morte,por mais que imaginemos céus e infernos,nosso instinto básico é a sobrevivência,e simplesmente não queremos morrer.Tememos a não-existência acima de qualquer coisa; tememos o não acordar mais...tememos o que iremos sentir quando nada mais sentirmos.
A evolução cobrou um preço alto pela inteligência. A consciência de nossa transitoriedade é frustrante e cruel.Buscamos um sentido para a vida,quando na verdade estamos buscando um sentido para a morte.Para um pássaro,que não entende que tudo termina, só existe um sentido lógico para a vida – vivê-la! Que sentido poderia ser maior?
Para os Homo sapiens no entanto viver não é suficiente,pois tudo termina geralmente sem aviso nem previsão , transformando qualquer luta ou conquista em algo inócuo diante da fatalidade.É preciso algo mais que,via de regra,não sabemos exatamente o que é!
Voce está na sua cama,hoje; levanta,toma seu banho,sai...e não mais volta.A roupa estará lá,secando no varal. A louça não lavada ficará na pia,junto com a conta que não será paga e o gato faminto que esperará,em vão, você voltar para casa.
É,a morte não tem graça! É a piada sem graça da Natureza,o acinte máximo à arrogância e soberbia do bicho-homem.Por mais que transformemos e desprezemos o mundo e outros que ainda iremos conquistar,a morte está aí,lembrando-nos de que somos todos iguais; mosquitos,samambaias ...baleias...todos sujeitos às mesmas leis inexoráveis dessa Natureza!
A medicina coloca a máxima absoluta: preservar a vida,acima de tudo! E inúmeras vezes condena pessoas à morte fria de uma UTI .Bem, a Medicina faz sua parte – evolui,se arma com técnicas cada vez mais sofisticadas; prolonga a vida no afã desesperado de driblar o inevitável...e perde o jogo,sempre.
Talvez,e eu disse apenas talvez,o grande segredo das coisas seja pensar mais como pássaros e procurar ver ,no viver, o sentido real de tudo.Talvez olhar mais para o microcosmos do nosso dia-a-dia do que para a grandiosidade de coisas que ainda estarão aqui depois de nós.Construir mais sonhos do que muralhas,brincar mais do que trabalhar...
Parece lugar-comum mas não sei expressar-me de outra maneira.
Somos infelizes porque pensamos na morte a todos os momentos,e deixamos a vida meio de lado.Pensamos em construir um futuro,em termos de bens materiais; compramos seguros de vida e comemos só coisas naturais porque,sabe como é,comida sintética pode nos matar um dia.E olha que tem gente que se priva de tantas coisas só para ser um defunto “em forma”,sem barriga e com o colesterol lá em baixo.Só que aquele câncer não quis saber disso!
É,a morte não tem graça! Mas a vida sim; ela pode fazer toda a diferença!!
R
15 junho 2010
A quem possa interessar
O adeus de um jornaleiro
Se estiver lendo essas mal traçadas linhas,saiba que já não pertenço a este mundo.
Meu nome...bem,não importa.Ninguém pergunta o nome de um jornaleiro.
Voce nunca reparou nisso?
Seja sincero: voce pergunta o nome do frentista quando abastece o seu carro? Ou o nome do motorista do ônibus? Ou o nome do jornaleiro quando compra seu jornal,sua revista favorita,ou mesmo figurinhas para o seu filho?
Quer saber? Voce não pergunta,e também não está nem aí!!
Voce sabe o nome do seu médico? Do seu mecânico? Da vendedora de Avon? Lógico que sabe! Mas do jornaleiro...
É por esse,entre tantos motivos,que estou dando fim a uma existência pífia,sem graça e sobretudo,sem reconhecimento: a existência fantasma de um – voce já adivinhou – jornaleiro,ou seja,eu!
Pense bem:
Jornaleiros levantam cedo.
Tão cedo que quando o infeliz está lá,levantando aquelas portas de correr,debaixo de uma puta chuva,ainda no escuro;voce está cá,despertando calmamente e sem stress.
Toma seu café,seu banho demorado...liga o seu carro do ano (jornaleiro quase nunca tem carro,porque nem ganha para tanto.E quando tem,é uma jabiraca velha que ninguém sabe nem o nome) e vai,feliz,para o seu escritório com ar-condicionado e uma secretária com um decote “abissal”. Vidão,né?
Jornaleiro não tem escritório,e quando tem um cafézinho para se aquecer,o raio do café está frio,congelando à míngua numa velha garrafa térmica jogada num canto da banca.
Lentamente,o dia se estende entre jornais,revistas,poluição e “pouca grana”.
Isso sem falar nos encalhes,que crescem à razão inversamente proporcional ao lucro.
Veja que irônico!
Quanto mais revistas - e mais trabalho – um jornaleiro devolve,menos ele ganha.Em tese,quanto mais “trampo”,menos grana.
Não é ingrato?
Francamente,cansei dessa vida!
Parece vida de prostituta.Quanto mais tempo ela fica “no ponto”,é sinal que faltam “clientes”!
Jornaleiro é assim.
Porque se ele vende bem,fecha a banca mais cedo,vai passear,tomar umas e outras;aproveitar a vida.
Mas se não vende fica lá,sentado feito um bobo,e torcendo para que algum “santo” compre uma Veja,ou Cláudia,ou até mesmo uma revista de fofoca.
Tem que sorrir sempre,mesmo se aquela gorda da loja da esquina revira a banca inteira,enche o saco,”empesteia” o ar com fumaça de cigarro e,quando vai embora,vinte minutos e 29 revistas “fuçadas” depois,não compra nada!
Não,não...para mim,chega!!
Estou dando um fim digno a essa vida “besta”.
Até porque,se eu não fizer nada,vou morrer lá mesmo,na banca – de câncer de pulmão,de frio,de calor,de tédio...isso se não morrer de fome antes!
Porque jornaleiro mesmo nem consegue almoçar.
Se vive de lanche,logo ganha uma gastrite ou mesmo uma baita úlcera.Se leva marmita,come fria e a prestação.Porque é só o coitado começar a comer,aparece gente prá pedir informação,comprar jornaleco ou revista barata.Revista cara,nunca!
Cara,isso não é vida.
Porisso estou aqui,preparando essa “fôrca” improvisada com fita de amarrar jornal.Tentei comprar uma corda boa,mas a grana não deu.Não vendi nada esse final de semana,nem no anterior,nem no outro...
Também pudera! Internet,assinaturas,concorrência desleal de supermercados... e até ambulantes! A banca,aquela com tom poético e ares de reduto cultural,está condenada como as feiras livres,os açougues , os sapateiros (eu nunca mais vi um.E voce?)...
Bom,está na hora.
E voce,que teve a paciência de ler esse desabafo até o final,dê uma força ao seu jornaleiro.
Pergunte o nome dele.
Prestigie a cultura lendo mais.A banca possui publicações para todos os gostos e bolsos.
Porque no dia em que as bancas de jornais forem apenas uma lembrança do passado,tenho certeza que sua magia evocará muita saudade.
Adiós
O adeus de um jornaleiro
Se estiver lendo essas mal traçadas linhas,saiba que já não pertenço a este mundo.
Meu nome...bem,não importa.Ninguém pergunta o nome de um jornaleiro.
Voce nunca reparou nisso?
Seja sincero: voce pergunta o nome do frentista quando abastece o seu carro? Ou o nome do motorista do ônibus? Ou o nome do jornaleiro quando compra seu jornal,sua revista favorita,ou mesmo figurinhas para o seu filho?
Quer saber? Voce não pergunta,e também não está nem aí!!
Voce sabe o nome do seu médico? Do seu mecânico? Da vendedora de Avon? Lógico que sabe! Mas do jornaleiro...
É por esse,entre tantos motivos,que estou dando fim a uma existência pífia,sem graça e sobretudo,sem reconhecimento: a existência fantasma de um – voce já adivinhou – jornaleiro,ou seja,eu!
Pense bem:
Jornaleiros levantam cedo.
Tão cedo que quando o infeliz está lá,levantando aquelas portas de correr,debaixo de uma puta chuva,ainda no escuro;voce está cá,despertando calmamente e sem stress.
Toma seu café,seu banho demorado...liga o seu carro do ano (jornaleiro quase nunca tem carro,porque nem ganha para tanto.E quando tem,é uma jabiraca velha que ninguém sabe nem o nome) e vai,feliz,para o seu escritório com ar-condicionado e uma secretária com um decote “abissal”. Vidão,né?
Jornaleiro não tem escritório,e quando tem um cafézinho para se aquecer,o raio do café está frio,congelando à míngua numa velha garrafa térmica jogada num canto da banca.
Lentamente,o dia se estende entre jornais,revistas,poluição e “pouca grana”.
Isso sem falar nos encalhes,que crescem à razão inversamente proporcional ao lucro.
Veja que irônico!
Quanto mais revistas - e mais trabalho – um jornaleiro devolve,menos ele ganha.Em tese,quanto mais “trampo”,menos grana.
Não é ingrato?
Francamente,cansei dessa vida!
Parece vida de prostituta.Quanto mais tempo ela fica “no ponto”,é sinal que faltam “clientes”!
Jornaleiro é assim.
Porque se ele vende bem,fecha a banca mais cedo,vai passear,tomar umas e outras;aproveitar a vida.
Mas se não vende fica lá,sentado feito um bobo,e torcendo para que algum “santo” compre uma Veja,ou Cláudia,ou até mesmo uma revista de fofoca.
Tem que sorrir sempre,mesmo se aquela gorda da loja da esquina revira a banca inteira,enche o saco,”empesteia” o ar com fumaça de cigarro e,quando vai embora,vinte minutos e 29 revistas “fuçadas” depois,não compra nada!
Não,não...para mim,chega!!
Estou dando um fim digno a essa vida “besta”.
Até porque,se eu não fizer nada,vou morrer lá mesmo,na banca – de câncer de pulmão,de frio,de calor,de tédio...isso se não morrer de fome antes!
Porque jornaleiro mesmo nem consegue almoçar.
Se vive de lanche,logo ganha uma gastrite ou mesmo uma baita úlcera.Se leva marmita,come fria e a prestação.Porque é só o coitado começar a comer,aparece gente prá pedir informação,comprar jornaleco ou revista barata.Revista cara,nunca!
Cara,isso não é vida.
Porisso estou aqui,preparando essa “fôrca” improvisada com fita de amarrar jornal.Tentei comprar uma corda boa,mas a grana não deu.Não vendi nada esse final de semana,nem no anterior,nem no outro...
Também pudera! Internet,assinaturas,concorrência desleal de supermercados... e até ambulantes! A banca,aquela com tom poético e ares de reduto cultural,está condenada como as feiras livres,os açougues , os sapateiros (eu nunca mais vi um.E voce?)...
Bom,está na hora.
E voce,que teve a paciência de ler esse desabafo até o final,dê uma força ao seu jornaleiro.
Pergunte o nome dele.
Prestigie a cultura lendo mais.A banca possui publicações para todos os gostos e bolsos.
Porque no dia em que as bancas de jornais forem apenas uma lembrança do passado,tenho certeza que sua magia evocará muita saudade.
Adiós
Esse é especial!
O MOCHO 29/3/08
Hoje eu quero contar uma estória.
Isso porque eu sou piauiense ,e piauense que se preza adora um causo ou prosa diferente.
E como voce não é daqui e sim da cidade grande,acho que vai gostar de escutar.
Eu nasci em Bom Princípio do Piauí,uma cidade lá pro norte do Estado,e que hoje...veje bem,HOJE... tem mais ou menos uns 6000 habitantes.
Diz o tal do censo que em 1994 tinha 4003,mas uns morrem,outros nascem...uns viajam prá fugir de casamento no trabuco;outras fogem prá esconder barriga...vai tudo passar fome no Rio ou em São Paulo.
Esses meus conterrâneos parecem mexicanos querendo mudar para os States.Largam tudo,se aventuram,e depois descobrem que vão fazer para o americano aquilo que o próprio americano julga “ baixo” demais – limpar latrina e mendigar salários humilhantes!
Ave Maria,ninguém percebe que a pobreza é uma indústria! Todo lugar tem muito pobre,todo lugar tem alguém rico...poucos lugares tem justiça!
Mas voltando à estória,eu sei que meu avô paterno – que Padim Cícero o tenha – contou ao meu pai – de novo,meu protetor Padim Cicero o conserve em seus braços – que me contou numa noite de lua, lá na terrinha que a gente cuidava para o Coronel Damião,e que em troca pagava médico e farinha para a família toda – mais de quinze,contando com Vó Angelina - todo esse relato fantástico...ou não?
A estória se passou mais ou menos em 1925,ou 26...sei lá!
Mas a estória...corre assim...
_Um mocho...um mocho...Entrou um mocho na cidade!!
Quem gritava era o Zézinho do Anzol,moleque sapeca mas esperto que fabricava anzóis junto com seu pai,o pescador Severiano.Mas também era famoso por diabruras e pêtas com as quais se divertia como todo bom “moleque’’ que se preza.
Certa vez colocou goma arábica no pote de “glostora” do Seu Macedo,o barbeiro.Imagine só o que aconteceu com o povo que usava e abusava da brilhantina!
O João Bigode,o sapateiro,passava brilhantina em “outro” lugar além do vasto bigode,e todo mundo ficou sabendo porque ele teve de procurar o Dr. Manoel Lacerda prá cortar os fios grudados.Também...tira do penteado prá passar no “enrolado”! Eu,heinn!!
-Como,moleque?Um mocho?
_É...um mocho!Horrendo;o mais feio que apareceu em Bom Princípio!
_Mas nunca apareceu nenhum.
_Por isso mesmo,seu Juca.Que meeedoo!
A notícia se espalhou como cinza no vento.
_Socorro!Acuda!Tem um mocho na cidade!
_Um mocho?
_Um mocho?
-Aonde?
_Tá lá.Foi pro campanário.O mocho tá na igreja,pessoal!!
-Na igreja?Ai,meu São Cosme e Damião.E agora?
-É,e agora? E o Padre Pasquale?
_Tá dentro da igreja.Coitado! Quem vai ajudá-lo agora? Quem diria...um mocho;e ainda por cima,na igreja.
_Mas como pode? Nessa cidade católica;abnegada...justo esse castigo? Um mocho?
_É verdade,Palmira.E todo mundo sabe que esses mochos tem parte com ...voce sabe...ELE!
_Sshhhh! Não fala isso.
_Falo sim.Tem parte com ele...o CHIFRUDO!
_Aahhhhh! Cala-te boca,Otávia!
_Mas é! Larga a mão de ser besta!!
_Seu Agenor,dá mais uma.
_Não vou servir mais,não.Não é hora para bebedeira.
_E porque?
_Voce não soube? Temos um ...mocho na cidade!
_Um quem?
_Mocho ,seu burro! O pior dos castigos;o pior dos destinos;o arauto do Apocalipse...
_O senhor sempre teve fama de letrado.O que é um mocho?
_Bem...um mocho é...um mocho.Raios,quer pior do que isso?
_Isso o quê? Hiicc!
Na Câmara dos Vereadores,a notícia chegou com estrondo.
_Quer me convencer o nobre colega de que temos um mocho habitando nossa bela cidade?
_Todos o viram,nobre colega.Está lá,tocaiando no campanário,à espreita de um incauto do qual,obviamente,valer-se-á como refeição.
-Mas,que faremos?
E o Prefeito,até então calado,decidiu:
_Contrataremos o homem mais valente da região.Armado até os dentes,expulsará o temível demônio e livrará nossa cidade desse flagelo!Tenho dito.
_Mas ,Excelência...contratar com quê? A Prefeitura tá falida!
_Vamos aumentar os impostos.E criar um movimento Anti-mocho.Aí a gente diz que é epidêmico,que pode matar,etc...
Isso,isso mesmo,Sr. Prefeito,e todos aplaudiram.
E foram atrás do cavaleiro andante do sertão.
Ele existia? Claro!
Era nem mais nem menos do que Zéca Belarmino,alcunhado o “cão-diabo”! Caboclo ruim que nem a peste!!
Zéca Belarmino estava lá,no lugar de sempre,o botequim do Tonhão Cabrito.Tonhão Cabrito tinha esse apelido porque seu pai era uma figura conhecido por criar os cabritos mais viçosos da região.E conhecia a cabritagem como ninguém!
_Tonhão,cadê o hôme?
_Tá lá fora,seu Prefeito.Foi enrola um cigarrinho.
_Tarde, Zéca.Preciso falá contigo.
O Zéca Belarmino era homem de pouca conversa.Famoso por seus atos de valentia,causava medo na população que o considerava um “fio” do Demo;bicho ruim toda vida.O povo dizia que ele comia calango vivo só pra ver o sofrimento do bichinho! E pior,nem rezava nem entrava na igreja!
Zéca Belarmino cuspiu um nó de fumo e olhou de soslaio para o Prefeito.
_É o mocho,não é?
_É.
_Eu faço;e nem quero pagamento.Só quero um rolo de fumo novo,da capital.E um garrafão da “ boa” da adega de vosmecê.Topa?
_Topo.Voce precisa de armamento,Zéca?
_Não carece mais que meu facão e essa garrucha que o Padre Pasquale amaldiçoou só porque “apaguei” uns cabras que mereciam...
_Então,vamo lá ,hôme!
_Pois vamo!
O povo logo soube da empreitada suicida mas corajosa,do Zéca Belarmino.
Tido como coisa-ruim pela população,de repente lá estava ele,o Zéca,o cão-diabo,feito herói e salvador da cidade.
A criançada corria à volta dele enquanto,resoluto,Zéca Belarmino caminhava silencioso em direção à igreja.
Cada passo que dava,tiniam as esporas empoeiradas enquanto faziam ritmo com o facão embainhado.O sol já se escondia no horizonte,e criava uma atmosfera digna de um faroeste italiano.
Zéca Belarmino,o crepúsculo,o facão de quatro palmos se aquecendo na bainha de couro...e o povo correndo atrás; mas beemm atrás.
O “hôme” chegou na igreja e logo viu o Padre Pasquale,tremendo feito vara verde.
Em outras circunstâncias o Padre jamais permitiria a entrada do Zéca na igreja.À muito já o tinha excomungado e considerava o dito-cujo um “coisa-ruim”,como já dizia o povo.E a voz do povo...
Mas nesse caso até que tudo fazia sentido.Nada melhor que um “fio” do Demo para acabar com outro!
_O Mocho tá lá no campanário,Zéca.Cê tem de subir aquela escada atrás do altar.
_Eu sei,padre.Já fui coroinha,lembra? Ou não?
_Valha-me nossa senhora;lembro sim.E quero esquecer!Mas isso não importa agora.Se existe um resto de cristão dentro de você,tire essa coisa da cidade!
Zéca Belarmino,o homem mais valente do lugar,principiou a subida até o campanário.Passo a passo,degrau por degrau,o homem sem medo foi chegando,chegando...até que viu.
De costas para ele,o terrível mocho escutou sua respiração ofegante e,lentamente,virou-se e encarou-o com seus olhos enormes e flamejantes.O Zéca Belarmino não agüentou:
_Vige Santa,balbuciou quase sem voz.
De pernas bambas,a fala embotada,o valentão da cidade sentiu o sangue gelar nas veias e,sem controle,mijou-se todo feito criança de colo.
Devagar,mas com uma pressa danada,iniciou o trajeto de volta pela escada e já na porta da igreja,chispou correndo pela praça gritando que o próprio chifrudo tinha subido do inferno!
O povo,desesperado,rezava em coro enquanto Prefeito,Vereadores e o Padre Pasquale tentavam se entender.
_E agora,Padre?
_Só temos de orar pela vinda do Salvador,pois só ele pode nos livrar desse malefício.
_É o Apocalipse,gritava a população.O fim do mundo!
Arrependam-se enquanto é tempo!!
_Não posso esperar ninguém,padre.Fim do mundo ou não,eu sou o Prefeito – e quero continuar sendo!Temos de achar uma solução!
_Vamo botá fogo na igreja!
_Isso é heresia,seu Euclides.Não se incendeia a casa de Deus.
_Mas Padre,se o chifrudo tá morando lá,é sinal que Deus se mudou.Porque eu duvido que eles morariam juntos!
_Faz sentido,Padre,exclamou o Prefeito.E se isso for,na verdade,um teste de fé?
_Como assim...de fé?
_Pense bem,Padre.É pecado incendiar a casa de Deus,mas matar também é.
E Deus pediu a Abraão que sacrificasse seu filho em nome da fé,cometendo um pecado para provar sua devoção.Abraão foi lá,amarrou seu filho ,mas na última hora Deus interviu.Lembra? E se for algo parecido?
_Peraí,Prefeito,eu não sou Abraão;sou só um Padre!
_Oxente,e Abraão nem Padre era!
Discute daqui,discute dali,por fim o Padre toma coragem:
_Antes de incendiarmos qualquer coisa,eu vou entrar.Se ele é o “coisa-ruim”,eu sou o representante de Deus na Terra.Vou entrar orando e,com água-benta e esse crucifixo,vou tentar espantá-lo da igreja.Depois,vocês o derrubam na “bala”mesmo!
O pequenino Padre Pasquale nunca sentiu tanto medo na vida.Mas para salvar a igreja enfrentaria qualquer coisa.Até o chifrudo!
Armado com seu crucifixo de prata e água-benta,iniciou sua subida ao Gólgota,degrau por degrau da escada do campanário.
Ao chegar ao topo,deparou com ele,de costas...o famigerado Mocho!
Suando e tremendo,proferiu:
_Em nome da Santíssima Trindade,eu ordeno que...que..saias da casa de Deus! E aspergiu a água-benta copiosamente.
O mocho assustou-se,e virando-se para o padre,exibiu grandes e poderosas asas,enquanto emitia um grito agudo e lancinante,como se brotasse do âmago das trevas,os olhos flamejantes faiscando com o fogo do Inferno!
O pobre Padre Pasquale queria correr,mas as pernas não obedeciam.Seu terror era tanto que cortou a mão direita,tamanha era a força com que segurava o crucifixo de prata.Ao sentir o sangue quente escorrer pelas mãos,o padre acordou do pânico e saiu em debalada pela escada abaixo.
Já na rua,gritava para o povo:
_Queimem...queimem a casa do demônio.
E o povo,inda que assustado,percebeu o milagre:
_O padre...o padre...tem os estigmas de Cristo.Olha o sangue!
_É...o sangue nas mãos dele! Aleluia!
_Aleluia,gritavam em coro.
O Prefeito,depois dessa, não esperou mais.Ordenou que ateassem fogo à igreja e,rápidamente,o povo obedeceu.
As chamas em breve assumiram proporções bíblicas.E enquanto subiam pela torre,viu-se,em meio à fumaça,a figura quase fantasmagórica do temível mocho voando para longe do fogo.
_Olha lá...é o mocho!
_O mocho!
_Meus Deus...que horrível!
Mais à distância,um garoto de mais ou menos oito anos,mãos seguras com o pai,exclamou:
_Pai,aquele é o mocho?
_É,filho;melhor nem olhar.
_Mas pai...parece uma coruja!!
_Que coruja,moleque!Fica quieto!
Minutos depois, uma bela e imponente coruja de igreja,popularmente conhecida como mocho por não ter as “orelhinhas” características,pousava numa árvore grande.
Ao fundo,uma fogueira gigante reduzia a cinzas a bela igrejinha de Bom Princípio do Piauí.
Ricardo
Hoje eu quero contar uma estória.
Isso porque eu sou piauiense ,e piauense que se preza adora um causo ou prosa diferente.
E como voce não é daqui e sim da cidade grande,acho que vai gostar de escutar.
Eu nasci em Bom Princípio do Piauí,uma cidade lá pro norte do Estado,e que hoje...veje bem,HOJE... tem mais ou menos uns 6000 habitantes.
Diz o tal do censo que em 1994 tinha 4003,mas uns morrem,outros nascem...uns viajam prá fugir de casamento no trabuco;outras fogem prá esconder barriga...vai tudo passar fome no Rio ou em São Paulo.
Esses meus conterrâneos parecem mexicanos querendo mudar para os States.Largam tudo,se aventuram,e depois descobrem que vão fazer para o americano aquilo que o próprio americano julga “ baixo” demais – limpar latrina e mendigar salários humilhantes!
Ave Maria,ninguém percebe que a pobreza é uma indústria! Todo lugar tem muito pobre,todo lugar tem alguém rico...poucos lugares tem justiça!
Mas voltando à estória,eu sei que meu avô paterno – que Padim Cícero o tenha – contou ao meu pai – de novo,meu protetor Padim Cicero o conserve em seus braços – que me contou numa noite de lua, lá na terrinha que a gente cuidava para o Coronel Damião,e que em troca pagava médico e farinha para a família toda – mais de quinze,contando com Vó Angelina - todo esse relato fantástico...ou não?
A estória se passou mais ou menos em 1925,ou 26...sei lá!
Mas a estória...corre assim...
_Um mocho...um mocho...Entrou um mocho na cidade!!
Quem gritava era o Zézinho do Anzol,moleque sapeca mas esperto que fabricava anzóis junto com seu pai,o pescador Severiano.Mas também era famoso por diabruras e pêtas com as quais se divertia como todo bom “moleque’’ que se preza.
Certa vez colocou goma arábica no pote de “glostora” do Seu Macedo,o barbeiro.Imagine só o que aconteceu com o povo que usava e abusava da brilhantina!
O João Bigode,o sapateiro,passava brilhantina em “outro” lugar além do vasto bigode,e todo mundo ficou sabendo porque ele teve de procurar o Dr. Manoel Lacerda prá cortar os fios grudados.Também...tira do penteado prá passar no “enrolado”! Eu,heinn!!
-Como,moleque?Um mocho?
_É...um mocho!Horrendo;o mais feio que apareceu em Bom Princípio!
_Mas nunca apareceu nenhum.
_Por isso mesmo,seu Juca.Que meeedoo!
A notícia se espalhou como cinza no vento.
_Socorro!Acuda!Tem um mocho na cidade!
_Um mocho?
_Um mocho?
-Aonde?
_Tá lá.Foi pro campanário.O mocho tá na igreja,pessoal!!
-Na igreja?Ai,meu São Cosme e Damião.E agora?
-É,e agora? E o Padre Pasquale?
_Tá dentro da igreja.Coitado! Quem vai ajudá-lo agora? Quem diria...um mocho;e ainda por cima,na igreja.
_Mas como pode? Nessa cidade católica;abnegada...justo esse castigo? Um mocho?
_É verdade,Palmira.E todo mundo sabe que esses mochos tem parte com ...voce sabe...ELE!
_Sshhhh! Não fala isso.
_Falo sim.Tem parte com ele...o CHIFRUDO!
_Aahhhhh! Cala-te boca,Otávia!
_Mas é! Larga a mão de ser besta!!
_Seu Agenor,dá mais uma.
_Não vou servir mais,não.Não é hora para bebedeira.
_E porque?
_Voce não soube? Temos um ...mocho na cidade!
_Um quem?
_Mocho ,seu burro! O pior dos castigos;o pior dos destinos;o arauto do Apocalipse...
_O senhor sempre teve fama de letrado.O que é um mocho?
_Bem...um mocho é...um mocho.Raios,quer pior do que isso?
_Isso o quê? Hiicc!
Na Câmara dos Vereadores,a notícia chegou com estrondo.
_Quer me convencer o nobre colega de que temos um mocho habitando nossa bela cidade?
_Todos o viram,nobre colega.Está lá,tocaiando no campanário,à espreita de um incauto do qual,obviamente,valer-se-á como refeição.
-Mas,que faremos?
E o Prefeito,até então calado,decidiu:
_Contrataremos o homem mais valente da região.Armado até os dentes,expulsará o temível demônio e livrará nossa cidade desse flagelo!Tenho dito.
_Mas ,Excelência...contratar com quê? A Prefeitura tá falida!
_Vamos aumentar os impostos.E criar um movimento Anti-mocho.Aí a gente diz que é epidêmico,que pode matar,etc...
Isso,isso mesmo,Sr. Prefeito,e todos aplaudiram.
E foram atrás do cavaleiro andante do sertão.
Ele existia? Claro!
Era nem mais nem menos do que Zéca Belarmino,alcunhado o “cão-diabo”! Caboclo ruim que nem a peste!!
Zéca Belarmino estava lá,no lugar de sempre,o botequim do Tonhão Cabrito.Tonhão Cabrito tinha esse apelido porque seu pai era uma figura conhecido por criar os cabritos mais viçosos da região.E conhecia a cabritagem como ninguém!
_Tonhão,cadê o hôme?
_Tá lá fora,seu Prefeito.Foi enrola um cigarrinho.
_Tarde, Zéca.Preciso falá contigo.
O Zéca Belarmino era homem de pouca conversa.Famoso por seus atos de valentia,causava medo na população que o considerava um “fio” do Demo;bicho ruim toda vida.O povo dizia que ele comia calango vivo só pra ver o sofrimento do bichinho! E pior,nem rezava nem entrava na igreja!
Zéca Belarmino cuspiu um nó de fumo e olhou de soslaio para o Prefeito.
_É o mocho,não é?
_É.
_Eu faço;e nem quero pagamento.Só quero um rolo de fumo novo,da capital.E um garrafão da “ boa” da adega de vosmecê.Topa?
_Topo.Voce precisa de armamento,Zéca?
_Não carece mais que meu facão e essa garrucha que o Padre Pasquale amaldiçoou só porque “apaguei” uns cabras que mereciam...
_Então,vamo lá ,hôme!
_Pois vamo!
O povo logo soube da empreitada suicida mas corajosa,do Zéca Belarmino.
Tido como coisa-ruim pela população,de repente lá estava ele,o Zéca,o cão-diabo,feito herói e salvador da cidade.
A criançada corria à volta dele enquanto,resoluto,Zéca Belarmino caminhava silencioso em direção à igreja.
Cada passo que dava,tiniam as esporas empoeiradas enquanto faziam ritmo com o facão embainhado.O sol já se escondia no horizonte,e criava uma atmosfera digna de um faroeste italiano.
Zéca Belarmino,o crepúsculo,o facão de quatro palmos se aquecendo na bainha de couro...e o povo correndo atrás; mas beemm atrás.
O “hôme” chegou na igreja e logo viu o Padre Pasquale,tremendo feito vara verde.
Em outras circunstâncias o Padre jamais permitiria a entrada do Zéca na igreja.À muito já o tinha excomungado e considerava o dito-cujo um “coisa-ruim”,como já dizia o povo.E a voz do povo...
Mas nesse caso até que tudo fazia sentido.Nada melhor que um “fio” do Demo para acabar com outro!
_O Mocho tá lá no campanário,Zéca.Cê tem de subir aquela escada atrás do altar.
_Eu sei,padre.Já fui coroinha,lembra? Ou não?
_Valha-me nossa senhora;lembro sim.E quero esquecer!Mas isso não importa agora.Se existe um resto de cristão dentro de você,tire essa coisa da cidade!
Zéca Belarmino,o homem mais valente do lugar,principiou a subida até o campanário.Passo a passo,degrau por degrau,o homem sem medo foi chegando,chegando...até que viu.
De costas para ele,o terrível mocho escutou sua respiração ofegante e,lentamente,virou-se e encarou-o com seus olhos enormes e flamejantes.O Zéca Belarmino não agüentou:
_Vige Santa,balbuciou quase sem voz.
De pernas bambas,a fala embotada,o valentão da cidade sentiu o sangue gelar nas veias e,sem controle,mijou-se todo feito criança de colo.
Devagar,mas com uma pressa danada,iniciou o trajeto de volta pela escada e já na porta da igreja,chispou correndo pela praça gritando que o próprio chifrudo tinha subido do inferno!
O povo,desesperado,rezava em coro enquanto Prefeito,Vereadores e o Padre Pasquale tentavam se entender.
_E agora,Padre?
_Só temos de orar pela vinda do Salvador,pois só ele pode nos livrar desse malefício.
_É o Apocalipse,gritava a população.O fim do mundo!
Arrependam-se enquanto é tempo!!
_Não posso esperar ninguém,padre.Fim do mundo ou não,eu sou o Prefeito – e quero continuar sendo!Temos de achar uma solução!
_Vamo botá fogo na igreja!
_Isso é heresia,seu Euclides.Não se incendeia a casa de Deus.
_Mas Padre,se o chifrudo tá morando lá,é sinal que Deus se mudou.Porque eu duvido que eles morariam juntos!
_Faz sentido,Padre,exclamou o Prefeito.E se isso for,na verdade,um teste de fé?
_Como assim...de fé?
_Pense bem,Padre.É pecado incendiar a casa de Deus,mas matar também é.
E Deus pediu a Abraão que sacrificasse seu filho em nome da fé,cometendo um pecado para provar sua devoção.Abraão foi lá,amarrou seu filho ,mas na última hora Deus interviu.Lembra? E se for algo parecido?
_Peraí,Prefeito,eu não sou Abraão;sou só um Padre!
_Oxente,e Abraão nem Padre era!
Discute daqui,discute dali,por fim o Padre toma coragem:
_Antes de incendiarmos qualquer coisa,eu vou entrar.Se ele é o “coisa-ruim”,eu sou o representante de Deus na Terra.Vou entrar orando e,com água-benta e esse crucifixo,vou tentar espantá-lo da igreja.Depois,vocês o derrubam na “bala”mesmo!
O pequenino Padre Pasquale nunca sentiu tanto medo na vida.Mas para salvar a igreja enfrentaria qualquer coisa.Até o chifrudo!
Armado com seu crucifixo de prata e água-benta,iniciou sua subida ao Gólgota,degrau por degrau da escada do campanário.
Ao chegar ao topo,deparou com ele,de costas...o famigerado Mocho!
Suando e tremendo,proferiu:
_Em nome da Santíssima Trindade,eu ordeno que...que..saias da casa de Deus! E aspergiu a água-benta copiosamente.
O mocho assustou-se,e virando-se para o padre,exibiu grandes e poderosas asas,enquanto emitia um grito agudo e lancinante,como se brotasse do âmago das trevas,os olhos flamejantes faiscando com o fogo do Inferno!
O pobre Padre Pasquale queria correr,mas as pernas não obedeciam.Seu terror era tanto que cortou a mão direita,tamanha era a força com que segurava o crucifixo de prata.Ao sentir o sangue quente escorrer pelas mãos,o padre acordou do pânico e saiu em debalada pela escada abaixo.
Já na rua,gritava para o povo:
_Queimem...queimem a casa do demônio.
E o povo,inda que assustado,percebeu o milagre:
_O padre...o padre...tem os estigmas de Cristo.Olha o sangue!
_É...o sangue nas mãos dele! Aleluia!
_Aleluia,gritavam em coro.
O Prefeito,depois dessa, não esperou mais.Ordenou que ateassem fogo à igreja e,rápidamente,o povo obedeceu.
As chamas em breve assumiram proporções bíblicas.E enquanto subiam pela torre,viu-se,em meio à fumaça,a figura quase fantasmagórica do temível mocho voando para longe do fogo.
_Olha lá...é o mocho!
_O mocho!
_Meus Deus...que horrível!
Mais à distância,um garoto de mais ou menos oito anos,mãos seguras com o pai,exclamou:
_Pai,aquele é o mocho?
_É,filho;melhor nem olhar.
_Mas pai...parece uma coruja!!
_Que coruja,moleque!Fica quieto!
Minutos depois, uma bela e imponente coruja de igreja,popularmente conhecida como mocho por não ter as “orelhinhas” características,pousava numa árvore grande.
Ao fundo,uma fogueira gigante reduzia a cinzas a bela igrejinha de Bom Princípio do Piauí.
Ricardo
03 junho 2010
O QUE ESTAMOS NOS TORNANDO?
Num mundo louco como o nosso freqüentemente chegamos a conclusões paradoxais e, por que não, absurdas!
Conectados que estamos à velocidades digitais,jamais o ser humano foi tão só.
Plugados num mundo no qual participamos à distância ,passamos os dias comovidos com a miséria e a injustiça,mas nada fazemos para acabar com elas.Os meios de comunicação,muito mais empresas do que serviços,exploram a podridão da sociedade para que nós, os comovidos , possamos passar o tempo em frente às tele-desgraças sem a menor preocupação, já que no sofá da sala “tudo vai bem,obrigado !”
Incrustrados numa política de comunicação que isola cada vez mais as pessoas,vemo-nos envolvidos em bate-papos tolos onde um teclado substitui a voz... ou mesmo um olhar.Não há mais diálogos – há Salas de Chat.
Inventamos o telefone para aproximar as pessoas através da fala;hoje usamos a linha telefônica para “conversar” através da escrita.Mas isso já existe a tempos – chama-se carta!
De que adianta a globalização do conhecimento,se não vemos resultados humanos – se nos sentimos cada vez mais solitários?
De que adianta sabermos que em Sri Lanka houve uma revolução ou existe escravidão de crianças? Do lado de cá do monitor, ou da tela da TV, a verdade nua e crua aparece pasteurizada e quase irreal, arrancando indignação de quem, protegido pela distância, lamenta as desgraças do mundo enquanto espera o jantar.
Esse alguém,esse “indignado” cidadão que consome a violência televisiva sob o pretexto de “estar informado” – esse alguém...somos nós!
Somos nós;nós que fazemos e vivemos um mundo de sexo virtual e de emotividade high-tech.
Somos nós que,plugados por fios,fugimos cada vez mais da presença real,do contato intimista;da sinceridade sem filtro.
Somos nós que contribuímos para a banalização da violência quando a vemos diariamente na mesa do café,e a esquecemos dez minutos depois.
O que estamos,afinal,nos tornando?
Num mundo louco como o nosso freqüentemente chegamos a conclusões paradoxais e, por que não, absurdas!
Conectados que estamos à velocidades digitais,jamais o ser humano foi tão só.
Plugados num mundo no qual participamos à distância ,passamos os dias comovidos com a miséria e a injustiça,mas nada fazemos para acabar com elas.Os meios de comunicação,muito mais empresas do que serviços,exploram a podridão da sociedade para que nós, os comovidos , possamos passar o tempo em frente às tele-desgraças sem a menor preocupação, já que no sofá da sala “tudo vai bem,obrigado !”
Incrustrados numa política de comunicação que isola cada vez mais as pessoas,vemo-nos envolvidos em bate-papos tolos onde um teclado substitui a voz... ou mesmo um olhar.Não há mais diálogos – há Salas de Chat.
Inventamos o telefone para aproximar as pessoas através da fala;hoje usamos a linha telefônica para “conversar” através da escrita.Mas isso já existe a tempos – chama-se carta!
De que adianta a globalização do conhecimento,se não vemos resultados humanos – se nos sentimos cada vez mais solitários?
De que adianta sabermos que em Sri Lanka houve uma revolução ou existe escravidão de crianças? Do lado de cá do monitor, ou da tela da TV, a verdade nua e crua aparece pasteurizada e quase irreal, arrancando indignação de quem, protegido pela distância, lamenta as desgraças do mundo enquanto espera o jantar.
Esse alguém,esse “indignado” cidadão que consome a violência televisiva sob o pretexto de “estar informado” – esse alguém...somos nós!
Somos nós;nós que fazemos e vivemos um mundo de sexo virtual e de emotividade high-tech.
Somos nós que,plugados por fios,fugimos cada vez mais da presença real,do contato intimista;da sinceridade sem filtro.
Somos nós que contribuímos para a banalização da violência quando a vemos diariamente na mesa do café,e a esquecemos dez minutos depois.
O que estamos,afinal,nos tornando?
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